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Jurani Clementino: Quero boas notícias…

Jurani Clementino. Publicado em 5 de março de 2021 às 10:40

Vivemos o pior momento desde o início da pandemia do novo coronavírus há quase um ano. Desde aquele dezessete de março de 2020 (dia do meu aniversário) decidi criar um diário repercutindo e acompanhando as notícias sobre a presença do vírus por aqui. Pensei que seria algo passageiro, mas já se foram 351 dias ininterruptos. Doze meses depois confesso que eu só queria trazer boas notícias. Queria ser um arauto pós-moderno da boa esperança. Porque estou aqui como mensageiro voluntário, há centenas de dias, dezenas de semanas, compartilhando mais tristeza, dor e angústia do que alegria, esperança e paz. Tem dias que me dá um desânimo tão grande quando acesso os sites, assisto aos programas de TV, olho as redes sociais porque é tanta coisa triste acontecendo. São tantas notícias desanimadoras! Tento poetizar, jogar nelas uma demão de cal como a gente fazia nas casas sertanejas para elas ficarem mais vistosas, mais bonitas, habitáveis… mas sinto que não tenho muito sucesso nessa empreitada. O fracasso me persegue nesses tempos nebulosos.

E, com esse meu ofício voluntario diante das tragédias noticiadas, ainda procuro ver o engraçado, o irônico, o inusitado, naquilo que é trágico, que é tenso, que é absolutamente inumano. Esses dias, li um texto tão poético onde o professor e amigo Rangel Junior, observava com os olhos sensíveis e a imaginação de um poeta, o pai dele, aos 93 anos, sentado numa cadeira de balanço esperando o tempo passar e o inverno chegar. Rangel via, sentia, imaginava e descrevia a cena com tanta fidelidade que me transportei para lá. Fiquei pensando: preciso também dizer coisas bonitas e leves. (O mundo precisa disso). Quero observar o cotidiano simples do meu pai. (Também na calçada, também a espera do invento, também de cabelos brancos e ralos, ouvindo cantorias pelo rádio). Quero ver a minha mãe na cozinha (acendendo o fogão a lenha, catando o feijão, tirando as “escolhas” do arroz, colocando coalho no leite e preparando o queijo). Quero fazer poesia, quero ser poeta também. Por um instante eu senti tudo isso.

Lendo aquele texto leve, poético, visceral do professor Rangel, me lembrei de meu avô que, até os 95 anos, também vivia intermináveis ciclos de esperança: o inverno que, feito aluno ruim, sempre chegava tarde e ia embora cedo, que nunca era como desejado; a colheita cada ano diminuindo; sua audição e visão que também iam se perdendo diante da mão implacável do tempo. Que tempos! Já era madrugada quando escrevi esse relato. Abri os sites e fugi das notícias sobre doenças, vacinas, violência policial, absurdos políticos, um caos que se instaurou lá fora sem data para ir embora. Preferi ficar com os meus pensamentos profundamente tocados pelo texto do amigo Rangel. Chorei ao ler aquele relato romanceado e derramei lágrimas escrevendo estas tristes e tortas linhas tropicais.

Enquanto escrevia e imaginava (ou seria: imaginava e escrevia?) vi todos os meus avós, todas as pessoas que amo, tanta gente que passou por mim… Vi meu sertão acaririzado pulsando nas minhas entranhas: em vidas, em dores, em amores. Das cantorias de viola aos terços de penitentes; dos vaqueiros destemidos às lavadeiras de roupa; dos agricultores cheios de esperanças às velhas parteiras de guerra. Transportei-me para o alpendre da casa de meu pai, para a calçada da casa de seu Raimundo Guedes (meu bisavô), subi e desci as ladeiras de barro vermelho do sítio Queixada e esqueci as tristes notícias tropicais. Lembrei que essa semana o meu irmão mais velho, (que tem o mesmo nome de meu avô materno, José, a mesma profissão, agricultor, e que mantém as mesmas esperanças que ele – como se isso fizesse parte de uma herança genética), me enviou uma fotografia que muito reflete esse “estado de poesia” do povo sertanejo.

Nessa imagem colorida feita com o aparelho celular estavam: um céu lindo, cheio de nuvens carregadas anunciando a chegada das chuvas; as arvores todas pintadas de um verde esmeralda, a cerca de estacote, a velha porteira da roça e um pé de ipê que ressurgiu depois das primeiras chuvas.

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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