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Jurani Clementino: Parem de nos matar

Jurani Clementino. Publicado em 8 de janeiro de 2021 às 12:40

Prólogo

Esse texto, quase que psicografado por mim, trata de um tema bastante comum: A violência contra a mulher. Tenho  a impressão de que alguém usou as minhas habilidades com a escrita para enviar esse recado. Nele estão fragmentos de vários relatos assustadores de centenas, milhares de mulheres que são cotidianamente violentadas, abusadas e tem suas vidas ceifadas por homens violentos, agressores e assassinos. Não se trata apenas do caso específico da jovem Amanda Jessica, covardemente e cruelmente assassinada, no último domingo, pelo seu companheiro, no Sítio Queixada – Várzea Alegre – CE. São histórias de tantas outras Marias, Aparecidas, Joanas, Franciscas, Madalenas, Raimundas, Jéssicas, Amandas… então leiam, divulguem, compartilhem e reflitam sobre esse problema como se ouvissem gritos, pedidos desesperadores de ajuda, de socorro. Tenham mais empatia, respeitem a dor do outro e façam desse mundo, um lugar melhor.

– Parem de nos matar

Você reclamava do meu corte de cabelo, da cor do meu batom, do cumprimento de minhas roupas… enxergava decotes onde não existia, olhava pra mim com olhares condenatórios, nunca foi capaz de me amar de verdade. Mas eu te amei. Você reclamava do sabor da minha comida, do café sempre amargo, das amigas que me visitavam, da novela que eu assistia, das vezes em que eu tentava te acompanhar quando você saía. Ao seu lado eu me anulei: cortava os cabelos conforme seu agrado, evitava usar maquiagem, até as roupas eu adaptei para poder estar com você. Eu não podia ter filhos e você sabia disso. Os médicos me orientaram a não engravidar. Mesmo assim te dei três meninos e uma menina porque você sempre quis ser pai. Não me arrependo porque eles foram a razão da minha existência. Mas você sabia que eu podia ter perdido a minha vida e, mesmo assim, insistiu. No teu mundo não existe mais ninguém: só você.

Quantas vezes chegou em casa bêbado, de madrugada, sem noção de onde ou por onde estava, e eu cumpri o papel de mulher, de companheira, de esposa, de amiga… e te acolhi. Nem ao menos perguntei onde estava ou com quem estava. Te dei banho, fiz a comida que você gostava e te coloquei pra dormir. Eu não era submissa: eu te amava. Mas eu devia ter me amado um pouco mais. Eu devia ter olhado pra mim e enxergado o quão estranha eu estava ficando. Como os meus desejos, vontades e prazeres foram anulados por sua culpa, (ou seria por minha culpa!?). Quando me batia eu achava que aquela seria a última vez. E toda vez que me agredia essa tal última vez nunca chegava. As ameaças iam se repetindo. Eu acreditava que tudo podia ser diferente. Quando raramente saíamos juntos, você não aproveitava a festa. Ficava o tempo todo me vigiando: pra onde eu estava olhando, com quem estava conversando, aonde estava indo…. e quando chegávamos em casa aquilo era um inferno porque você vinha com mil histórias imaginárias de que eu estava flertando com outros homens… me exibindo no meio do povo… Jesus, você era um psicopata e eu, ingenuamente, acreditava que tudo ia passar. E quando finalmente percebi que a errada não era somente eu, que você era um doente e então decidi me afastar, nessa hora você mudou. (Mudou mesmo?!)

De repente aquele homem agressivo, ciumento, possessivo… se transformou num amor de pessoa. Se transformou na pessoa que eu sempre imaginei: no homem que eu quis e desejei o tempo todo. Eu não devia ter acreditado em você. Ainda apaixonada, ainda esperançosa, ainda humanamente imperfeita eu resolvi perdoar tudo e voltar. Nossos filhos precisavam de um pai presente. Nossa casa precisava de uma família unida, era a chance de seguir com uma vida nova… e, mais uma vez, eu estava enganada. Você interpretava apenas um personagem. Aquele homem maquiavélico, cruel e inconsequente, ainda residia em ti. Meu Deus, eu não devia ter acreditado. Eu devia ter seguido em frente, de cabeça erguida, sem olhar pra trás. Afinal foram décadas de um relacionamento abusivo. Tudo que eu queria era viver e tudo o que você queria era tirar a minha alegria de permanecer viva.

Eu não merecia morrer. Não agora, não desse jeito, não assim tão brutalmente, tão cruelmente assassinada feito um animal selvagem no meio da mata. Eu morri, você, mesmo fracassando na tentativa de tirar a sua própria vida, também está morto. Nós todos morremos. Mas mesmo assim gostaria de fazer um pedido para tantos outros homens iguais a ti: parem de nos matar. Parem de nos tratar como propriedade e achar que devemos ser submissas, nulas, objetificadas nas relações… nos deem o direito de sermos livres e felizes. E quando perceberem que não dá mais deixem-nos seguir em frente. Não abreviem as nossas vidas. Não anulem os nossos sonhos. Daqui de cima consigo enxergar com nitidez tudo o que antes, mesmo debaixo de meus olhos, eu não via. Paguei um preço alto por tamanha cegueira, mas isso não te dava o direito de fazer o que fez. Parem de nos matar. Daqui vou zelar pelos meus filhos, filhos que também são seus, e pedir para que Deus os ilumine e proteja. A todas as mulheres que, assim como eu, não perceberam o perigo de uma relação abusiva, vai o meu recado: cuidado, gritem, peçam ajuda, fujam de seus algozes. E aos homens covardes e cruéis como você, o meu pedido: parem, parem de nos matar.

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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