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Jurani Clementino: Pandemia e melancolia

Jurani Clementino. Publicado em 27 de maio de 2020 às 12:02

Paraíba Online • Jurani Clementino: Pandemia e melancolia

A cidade está triste. Uma melancolia escondida por trás de máscaras coloridas. Esterilizada com álcool em gel. Silenciosa. Angustiante. Com poucas esperanças agarradas na fé. Aparentemente as pessoas estão menos humanas. Temem a aproximação do outro. Cumprimenta-se mecanicamente. Simulam abraços imaginários, um aperto de mão não executado, beijos suspensos. Uma estranha onda de medo e cuidado afastou os amigos do bar, colocou pais filhos, maridos, esposas, familiares na condição de estranhos. Entramos num permanente e interminável exílio. Estamos aprendendo a viver só. A encontrar dentro de si uma razão para a nossa existência. Existência que só tem sentido se obedecermos esse distanciamento, esse isolamento, essa privação da relação interpessoal. Se superarmos a ausência dos abraços, dos apertos de mão, dos beijos, da felicidade dos encontros, da banalidade tão comum, até outro dia, que era dividir a mesa de bar, sair para botar o papo em dia com os colegas, da liberdade de vivermos sem nos dá conta da presença de um inimigo. 

Dias em que o aconchego da família não prescindia de tantos cuidados. Mais do que nunca o amor exige zelo. Precauções para consigo e diante do outro, atenção permanente… Nossa liberdade nunca mais será a mesma. A nossa geração certamente não irá superar esse trauma. Estamos passando por um momento de desencaixe. Tudo estava aparentemente tranquilo e surge uma ruptura. De repente não sabíamos de nada. Estão nos ensinando a aprender a aprender. Voltamos ao jardim de infância da vida. Vida que só tem sentindo se vivida com responsabilidade e respeito. Por isso percebo a tristeza que se esconde por trás das máscaras e desinfetadas com tubos e tubos de álcool.

Aprender é um processo interessante, mas doloroso. E não temos opção. Não há escolhas. O mundo inteiro virou uma grande sala de aula. Sem divisão de classes, sem distinção de cor, raça, religião… todos, exatamente todos, fomos intimados a aprender a aprender. Eu não posso simplesmente dizer que não estou gostando do método, das indicações de leituras, dos colegas de sala, do professor… Não posso simplesmente pedir pra mudar de turno, de escola, de série, porque ocupamos a mesma sala, temos os mesmos professores, seguimos a mesma metodologia e fazemos parte da mesma escola. Como diria Paulo Freire, aprender é um ato de humildade. Só sairemos dessa se nos deixarmos tomar pelo exercido cotidiano da simplicidade. Pela vigilância constante de nossas ações. Chegaremos ao final cansados, esgotados e tristes, mas certamente muito mais humanos e conscientes de nosso papel aqui na terra. Os heróis poderão erguer a bandeira da vitória contra dois grandes inimigos: a pandemia e a melancolia. Só depois as cidades e seus habitantes poderão sorrir, poderão se abraçar, poderão ensaiar nossos encontros, novos desencontros, novos reencontros. 

Jurani Clementino – campina grande – pb 27 de maio de 2020

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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