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Jurani Clementino: Os pássaros e as paredes brancas

Jurani Clementino. Publicado em 26 de dezembro de 2020 às 8:22

Era comum, todo final de ano, os donos das casas sertanejas mandarem passar uma mão de cal nas paredes daquelas tímidas construções. As razões eram óbvias: além de transmitir uma sensação de que a casa ficou nova, vistosa e mais alegre, tinha também a proposta de deixar limpa para receber as visitas do final do ano ou entrar o ano seguinte com tudo bem arrumado. A cor que predominava por ali era o branco reluzente e poucas casas fugiam aquela regra socialmente estabelecida. A tradição era de deixar as construções alvinhas de modo que avistávamos de longe aqueles pontos embranquecidos em meio a cor cinza da caatinga, ou fincados naquele chão de cor avermelhada.

Para tal serviço contratavam um pintor amador já conhecido, um amigo pedreiro para fazer algum retoque, ou algum morador daquela casa mesmo dava um jeito de jogar cal nas paredes. Baldes e baldes de tinta branca. Em contato com o sol aquela cor neutra doía nos olhos. E o resultado, embora agradasse a muita gente, trazia consequências fatais. Pois aquela mudança repentina era, imediatamente, sentida pelas aves. Geralmente pequenos pássaros que, não sei por qual razão, mergulhavam contra aquelas paredes num voo suicida. Aquelas aves desavisadas deviam imaginar que aquele branco não passava de um imenso vazio, espaço ideal para um voo tranquilo. Resultado: eram incontáveis as rolinhas que morriam batendo de frente com aquelas paredes brancas.

Nada intencional como aqueles aviões que, em Setembro de 2001, atingiram em cheio as Torres Gêmeas na cidade de Nova Iorque. Aquelas rolinhas não sacrificavam as suas vidas pelo puro prazer de morrer ou pelo desejo de matar. Não eram kamikazes. Tratava-se de uma morte tão ingênua e, ao mesmo tempo, tão poética que quando elas davam por si, estavam servindo de alimento para um gato traquino que, sabendo dessa possibilidade, já ficava ali esperando a próxima presa. Quando acontecia de alguém flagrar aquele acidente, as pobres aves ainda eram socorridas ou sacrificadas e serviam de tempero para um improvisado jantar.

Hoje percebo que as casas do sertão ficaram mais coloridas. Não predomina necessariamente o branco como a cor usada para animar aquelas construções. Também não saberia informar se diminuiu a incidência de pássaros/rolinhas mortas ao se chocarem com aquelas paredes. O fato é que muita coisa mudou…

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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