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Jurani Clementino: Os Natais dos pães-de-ló

Jurani Clementino. Publicado em 9 de dezembro de 2019 às 10:33

Foto: arquivo pessoal

A fabricação do bolo de pão-de-ló é uma tradição sempre mantida pelas famílias sertanejas em dias que antecedem o período natalino. Eu cresci esperando o Natal porque essa data tinha gosto de goma de mandioca misturada com ovos de galinha caipira, mel de rapadura e especiarias como cravo e canela. Natal era sinônimo de pão-de-ló, um bolo com sabor de coisas antigas. Uma receita aparentemente simples, repetida por várias gerações sem grandes alterações e mantida, permanentemente, na sua essência. Mas aquilo dava um trabalho danado. 

Tudo começava com um amontoado de ovos. Um a um se extraía a clara que era batida, incialmente, em separado das gemas. Depois que aquela substância gelatinosa virava verdadeiros flocos de brancas nuvens era que se misturavam com as gemas. Trabalho que recomeçava. Mais um longo tempo unindo o branco ao amarelo. “Não pode ficar com cheiro de ovo, meu filho”, dizia a minha avó. E danava-se a bater. E a cheirar. Enquanto isso, as rapaduras eram partidas em pequenos pedaços e colocadas para aquecer ao fogão a lenha numa panela com um pouco de água. Ali eu compreendia como se dava o processo inverso da produção de rapadura. Rapadura que voltava a ser mel de cana de açúcar. Mel que servia para adoçar aquela mistura de ovo e goma. Tudo junto em pratos de barro e mexido, e batido, sem dó nem piedade, com resistentes colheres de pau. As mulheres se revezavam naquela função.

Aquela atividade de produção caseira de bolo provocava um barulho que conectava todas as casas sertanejas em véspera de Natal. Batiam daqui, respondiam dali, ecoavam de lá. Era a anunciação do bolo natalino. Em breve, como num trabalhoso passe de mágica, nasceriam os pães-de-ló. Para nós, meninos sertanejos, aqueles bolos eram o maná dos deuses. Algo esperado ao longo de um ano. Doze meses. A espera daqueles bolos nos dava a dimensão do tempo. Tínhamos a clara noção do que eram 365 dias. Isso porque não se faziam pães-de-ló todo fim de semana. Aquele bolo era uma coisa rara. A explicação podia estar no trabalho que era fabricar aquele alimento. As mulheres passavam horas e horas agarradas àqueles pratos de barro, mexendo a massa, batendo com aquelas colheres de pau. Esperando o milagre do “ponto”. Esse tal ponto da massa/goma eu nunca entendi ao certo o que significava, mas elas diziam que era quando já não havia mais o cheiro de ovo. E que, portanto, a textura daquela massa estava boa para ser levado ao forno. 

Forno feito artesanalmente com pedaços de tijolos na parte externa da casa. Quase sempre próximo à cozinha. Construído para ser usado uma única vez ao ano. Trabalho que competia aos homens. Fornos que pareciam miniaturas daquelas casas pobres do sertão. Rebocados com barro, uma triste chaminé cuspindo uma fumaça tímida e uma porta minúscula por onde inseriam a lenha que acesa, logo virava brasas. Por aquela porta estreita também se colocava aquela massa de goma em pequenas formas de latas de sardinha ou recipientes vazios de doce de goiaba. E em questão de minutos os pães-de-ló, em formatos retangulares ou arredondados, saíam fumegando daquele improvisado forno a lenha. “Espera esfriar, menino! Vai dar bucho inchado!”, repetiam, sem sucesso, as nossas mães. Que se dane o bucho! Nenhum segundo a mais! Bastavam aqueles infinitos 365 dias de espera. Comíamos quente mesmo. Comíamos tanto que, no outro dia, quando o Natal chegava, estávamos absolutamente fartos e enjoados daqueles bolos. Bolos natalinos. Bolo sem cheiro de ovo. Pães-de-ló. 

Jurani Clementino – Campina Grande PB 

05 de dezembro de 2019

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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