Fechar

logo

Fechar

Jurani Clementino: O réu, o rei e o paraibano Roberto

Jurani Clementino. Publicado em 7 de maio de 2020 às 11:57

No próximo domingo, o cantor Roberto Carlos vai fazer uma apresentação especial, com duração de pouco mais de uma hora, em comemoração ao dia das mães. Por coincidência, acabo de concluir a leitura do livro “O Réu e o Rei: minha história com Roberto Carlos, em detalhes”, escrito pelo jornalista e historiador Paulo César de Araújo. Para quem não sabe, Paulo César é baiano de Vitória da Conquista, autor de “Eu não sou cachorro, não!” rico trabalho de pesquisa sobre a música brega e lançou em 2006 a biografia: Roberto Carlos em detalhes. O livro gerou polêmica depois que o rei decidiu processar a editora e o autor da biografia não autorizada e ordenou que todos os livros fossem recolhidos das livrarias. Pois é, esse acontecimento repercutiu bastante na época, chegou até ao Supremo Tribunal Federal por se tratar de um ato contra a liberdade de expressão. O fato é que Paulo César viu um trabalho de pesquisa com mais de 150 entrevistas ao longo de 15 anos sendo recolhido em caminhões e armazenado num galpão, longe da apreciação dos leitores. 

Durante todos esses anos o jornalista disse que tentou, sem sucesso, uma entrevista com Roberto Carlos. Procurou a assessoria de imprensa, os empresários, os amigos em comum, mas sempre recebeu como resposta frases como: estou tentando ver com ele; Roberto tá viajando; Roberto não gosta de dar entrevista; no momento ele está numa turnê pelo Brasil etc etc etc. Entre os artistas entrevistados para o livro sobre Roberto Carlos estão nomes como: Caetano Veloso, Chico Buarque  de Holanda,  Maria Bethânia, Gal Costa, Gilberto Gil, Tim Maia, Wandeleia, Erasmo Carlos… até o praticamente inacessível João Gilberto, criador da Bossa Nova, tivera com Paulo César conversas informais sobre Roberto Carlos. Mas o rei jamais se permitiu esse contato com o jornalista. 

Paulo é um apaixonado pela música brasileira, e desde menino, ainda morando em Vitória da Conquista, despertou uma admiração indisfarçada pelas músicas de Roberto Carlos. Desde então passou a colecionar os discos do cantor e a assistir o seu especial de Natal pela Rede Globo, que existe desde 1974. Quando se mudou para São Paulo e posteriormente para o Rio de Janeiro sentiu a necessidade de entender e explicar esse artista que chegou a vender dois milhões de discos apenas no lançamento do álbum, todos eles ocorridos, religiosamente, nos últimos dias de dezembro. A perseguição de Paulo para conseguir uma entrevista com Roberto Carlos começou em 1990 quando ele ainda era estudante dos cursos de Comunicação Social de Historia. Participou de penetra de várias coletivas de imprensa do rei, assistiu diversos shows, acompanhou um amigo do Jornal do Brasil para uma entrevista no apartamento de Roberto, localizado no charmoso bairro da Urca – RJ, na oportunidade expôs o projeto de pesquisa sobre o cantor, mas recebeu como reposta o repetido e incerto: vamos agendar, bicho! 

Vencido pelo cansaço, mas com um rico e vasto material sobre o cantor, Paulo César decidiu juntamente com a editora Planeta, lançar o livro biográfico sobre Roberto Carlos sem aquele tão sonhado contato com o biografado. Não deu outra. O rei ficou furioso. Saiu do trono. Traçou um “plano de guerra” com seus advogados e, dias após o livro ser lançado, Roberto Carlos ordenou que todos os exemplares fossem recolhidos das livrarias e ainda processou a editora e o biógrafo por invasão de privacidade e uso indevido de sua imagem para fins comerciais.

Bem, os detalhes desse triste evento estão todos, minunciosamente narrados, no volumoso livro: O réu e o rei. Quem tiver interesse nos bastidores dessa história basta procurar o livro lançado em 2014 pela editora Companhia das Letras. Após essa leitura fiquei imaginando: Roberto Carlos parece mesmo “ser terrível”. Assustado com as revelações desse relato de Paulo César de Araújo, me veio a memória uma história envolvendo também o cantor ícone da Jovem Guarda e um desconhecido empresário paraibano ocorrida em 2014. O dono de uma imobiliária na cidade do Conde, litoral sul da Paraíba, acordou, um belo dia, com um processo enviado pelos advogados do rei Roberto Carlos. Qual o motivo: o cantor alegava que o paraibano estava usando seu nome indevidamente para promover os seus negócios. E pedia que o nome Roberto Carlos fosse retirado da parede daquele estabelecimento empresarial sob pena de multas diárias que iam de 500 reais a 500 mil reais. Sabe o nome do empresário paraibano ROBERTO CARLOS. Ele teria dado o próprio nome a empresa como costuma ser fato corriqueiro. Não havia nada ali relacionado a figura do rei. Nem a arte, nem a tipografia da letra, cores.. nada de nada… resultado: A justiça de São Paulo analisou improcedente o processo e aquele anônimo paraibano de nome Roberto Carlos pode manter a placa com o seu nome em frente ao estabelecimento dele. Parece que o rei não faz mais a menor questão de ter “um milhão de amigos”.

Jurani Clementino 

Campina Grande – 05 de maio de 2020

Share this page to Telegram

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Mais colunas de Jurani Clementino
Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

[email protected]

Arquivo da Coluna

Arquivo 2018 Arquivo 2017 Arquivo 2016 Arquivo 2015

2018 - Paraiba Online - Todos os direitos reservados.

BeeCube