Fechar

logo

Fechar

Jurani Clementino: O Rádio no Brasil – 98 anos

Jurani Clementino. Publicado em 25 de setembro de 2020 às 12:47

Paraíba Online • Jurani Clementino: O Rádio no Brasil - 98 anos

Quando me perguntam sobre o meu interesse pelo jornalismo, eu sempre faço referências a dois veículos de comunicação que fizeram parte da minha infância: o rádio e a TV. Claro que o meu acesso aos conteúdos radiofônicos vem em primeiro lugar porque esse veículo já existia de maneira popular mesmo antes de eu nascer. Então, foi o rádio o responsável primeiro pelo meu interesse na comunicação. E isso vem da infância. Lembro que meu pai madrugava ouvindo um programa radiofônico veiculado pela Rádio Sociedade da Bahia. Quando o dia amanhecia e o sinal AM daquela emissora ficava ruim, ele mudava a chave e sintonizava os programas de emissora locais ou regionais, quase sempre os programas de cantadores e de músicas sertanejas. No meio da manhã ouvíamos variedades, dicas de novela, horóscopo, os lançamentos musicais.. tudo isso chegava até a gente pelas ondas hertzianas. Por aquelas bandas não circulava o jornal impresso e só ficávamos sabendo as notícias pelo rádio mesmo ou pelas fofoqueiras de plantão. Quando aparecia alguma página de jornal no sítio era enrolada em alguma barra de sabão ou nas dezenas de balas que nossos país compravam na cidade. Portando o rádio cumpria essa função de nos informar e nos entreter.

Foi essa nossa exposição ao veículo que nos permitiu ainda criar os primeiros ídolos. Os artistas, os apresentadores, os jornalistas, os músicos, técnicos… o rádio mexia com o nosso imaginário. A partir da voz criávamos perfil, imaginávamos como seria. Magro, alto, preto, branco, bonito, feio.. como deve ser esse apresentador ou apresentadora. Na questão das informações transmitidas pelo rádio a gente também imaginava as situações com os acidentes detalhados na voz grave do locutor, o incêndio que destruiu a casa, a visita do papa, a morte de Luiz Gonzaga, a posse do presidente…

Acredito que nenhum de nós escapa de uma memória afetiva associada a programas radiofônicos. Quase nunca a gente desligava o rádio. Mesmo os de pilhas. Meu pai conta uma vez que pagou o maior mico. Com as pilhas vazias ele se dirigiu até a cidade e comprou pilhas novas para colocar no rádio. Chegou em casa trocou … e nada do rádio funcionar. Mexeu pra cá, mexeu pra lá e o rádio não dava sinal de vida. Foi aí que montou num cavalo, colocou o rádio num saco e voltou até a cidade para saber o que tinha acontecido com aquelas pilhas recém compradas. Chegando na loja o rapaz abriu, colocou as pilhas no lugar e pronto, o rádio estava novinho em folha. Daí ele Perguntou por que não tinha conseguido funcionar com ele. O rapaz teria dito: porque o Sr colocou as pilhas erradas.

Depois que a energia chegou no sítio aí foi que o rádio não teve sossego. O dia inteiro ligado na tomada. Fazendo companhia a donas de casa, ajudando o tempo passar, informando sobre o que acontecia em todo canto do mundo. A língua fofoqueira da vizinha foi aos poucos sendo destronada pelas conversas dos apresentadores de programas radiofônicos. Deu no rádio é verdade! Eu soube, acabou de passar no rádio. Veículo de comunicação como sinônimo de credibilidade. Depois de quase cem anos da sua primeira transmissão inaugural, ocorrida em 1922 durante o aniversário de cem anos de independência do Brasil, o veículo rádio só tem se reinventado: se modernizado. Passou do AM para o FM, embarcou na onda da internet, sofisticou-se e manteve sempre essa relação de proximidade, testemunhalidade e confiança com os seus ouvintes.

Jurani Clementino – Campina Grande
25 de setembro de 2020

Share this page to Telegram

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Mais colunas de Jurani Clementino
Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

[email protected]

Arquivo da Coluna

Arquivo 2018 Arquivo 2017 Arquivo 2016 Arquivo 2015

2018 - Paraiba Online - Todos os direitos reservados.

BeeCube