Fechar

logo

Fechar

Jurani Clementino: O menino, a cangalha e o burro

Jurani Clementino. Publicado em 17 de dezembro de 2020 às 11:56

Era acavalado num burro ou numa égua, sentado em cima de uma cangalha de madeira, no meio de uma carga de arroz, posicionado desconfortavelmente entre aqueles dois sacos pesando sessenta quilos cada, amarrados nas laterais da cangalha, que a gente ia até as máquinas de beneficiamento de arroz para mandar pilar, descascar o produto. A gente acordava cedo. Meu pai já tinha preparado o animal, o arroz já estava nos sacos era só jogar tudo em cima do burro, dar uma quantia para pagar o serviço ou quando não tinha dinheiro, orientava a gente para mandar o funcionário da máquina tirar, do próprio arroz, o valor correspondente ao trabalho dele.

O burro e/ou a égua iam na velocidade que eles quisessem. Geralmente muito lento. Às vezes, com o andar do animal, a carga ficava torta, puxando mais para um lado, pensa e você torcia para encontrar alguém na estrada que lhes ajudasse a endireitar os sacos no lombo do burro. Ou para equilibrar o peso você ia sentado sobre o saco de arroz que estava mais alto. Seis quilômetros até a o Sítio Juazeirinho. Era uma viagem interminável. Passava pela Ladeira da Grota Funda, as Lagoas, Carnaúbas, atravessava o Riacho do Machado, chegava no sítio Jatobá, e, finalmente, o Juazeirinho. Chegando lá tinha sempre uma alma boa que te ajudava a retirar a carga de cima do animal. Depois você amarava o bicho debaixo de uma árvore, colocava os sacos na fila, porque muita gente já tinha chegado antes, e ia aguardar a vez. Só que demorava horrores. Salve engano, a máquina funcionava dois dias por semana: nas quartas e nos sábados. E, em dias assim, quando alguma peça da máquina quebrava, a espera não tinha fim. Geralmente a gente ocupava um dia inteiro para esse serviço e todo mês a gente tinha que mandar pilar uma carga de arroz. Ou seja, a cada mês a gente passava um dia de fome. Ou então um dia inteiro comendo arroz cru. Quentinho, saindo daquelas bocas sujas da máquina.

Pra minha sorte (eu sempre tive um pouco de sorte nessa vida), existia uma tia minha, irmã de minha avó, de nome Santinha, que morava numa casa ao lado do prédio da máquina. E ela se compadecia com aquela situação do sobrinho faminto e me dava o que comer. Era uma comida tão boa. Mas quando ela não estava em casa, a fome era garantida. Ah! pra quem acha que corrupção é coisa nova e só existe em Brasília, quero dizer que naquele tempo já tinha aqueles espertalhões, conversadores e amigos dos funcionários da máquina que davam um jeito de colocar o arroz deles na frente. Furavam fila. E a gente não dizia nada. Eu mesmo via, mas não tinha coragem de falar. Um menino velho abestalhado, barrigudo e remelento. Mas desde aquele tempo, eu já sabia que aquilo era injusto e que, por aquelas ações, alguém pagava um preço.

Depois que o arroz estava pronto, ou seja, pilado, a gente voltava pra casa completamente esgotado. O burro fazia o caminho de volta mais rápido. Acho que era a fome que apressava o passo do pobre animal, já que ele tinha passada o dia amarrado num pé de uma cerca ou debaixo de uma árvore. Mas, na volta, o peso também era menor. Fizemos isso muitas vezes, durante muitos anos. Depois instalaram uma máquina de “pilar arroz” no Sítio Carnaúbas e ficou mais fácil porque era mais perto. Nessa época, também, popularizou-se o uso das motocicletas e meu irmão mais velho podia colocar uma saca de arroz na garupa da moto, deixar lá na máquina e depois voltar pra buscar. Nesse período também, começaram a circular pelo Sítio Queixada os chamados “carros da linha”, – os caminhões que levavam e traziam passageiros diariamente até Várzea Alegre, e o pessoal passou a enviar o arroz para ser pilado na cidade. Desde então e, graças a Deus, nosso sacrifico em se deslocar com aquelas sacas de arroz, em cima daquele animal e montados naquelas cangalhas duras, feitas de madeira, foi sendo pouco a pouco reduzido.

Jurani Clementino
Campina Grande – 07 de dez 2020

Share this page to Telegram

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Mais colunas de Jurani Clementino
Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

[email protected]

Arquivo da Coluna

Arquivo 2018 Arquivo 2017 Arquivo 2016 Arquivo 2015

2018 - Paraiba Online - Todos os direitos reservados.

BeeCube