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Jurani Clementino: Meu irmão João

Jurani Clementino. Publicado em 8 de agosto de 2020 às 8:11

Meus dois irmãos mais velhos receberam nomes de Santos: José e João, porque estes eram também, respectivamente, os nomes de meus avós materno e paterno. É comum os avós serem homenageados pelos filhos repetindo o nome deles em seus primogênitos. João, que é dois anos mais velho do que eu, desde muito criança, sempre foi muito próximo a mim e me ensinou muita coisa.

Ele nunca gostou de estudar. Vive uma vida simples com uma rotina de muito trabalho, quase não vai à cidade, a não ser que precise muito, mas foi ele quem me aproximou de Zé Clementino quando me convidou para passar na casa do compositor pouco antes dele morrer em 2005.

Também foi João quem, ao ouvir as repercussões sobre as minhas primeiras crônicas na Radio Cultura de Várzea Alegre, me disse que as pessoas gostavam mais daquelas histórias que falavam do sertão, das rotinas do povo sertanejo, aquelas narrativas mais humanas etc.

A ideia de escrever uma crônica sobre as histórias do divertido Zaqueu Guedes, foi dada por João, que me levou até a casa de Renato, no sítio Timbaúbas e depois até o encontro de Gilberto que estava com todas aquelas histórias anotadas a lápis num pequeno caderno.

Foi a partir desse olhar de João que passei a contar os causos e as curiosidades do sertão. E logo eu, que fiz mestrado em Desenvolvimento Regional, fui aprender, outro dia com ele, como se deu o processo de especulação imobiliária sítio/cidade, ele me explicou porque atualmente os terrenos nas zonas urbanas ficaram tão caros uma vez que no passado ninguém queria de graça.

Professor nenhum foi tão didático quanto ele. Toda vez que ele faz um comentário, pode não ter um embasamento teórico acadêmico, mas tem uma experiência de vida surpreendente.

Eu sempre fui muito próximo dele. Talvez por que depois de mim só veio nascer outro irmão cinco anos depois. E não era um menino, era uma menina. Então a minha base e referência de irmão, com quem a gente aprende, foi João.

Quando eu era menino de uns seis sete anos de idade, eu chegava a imaginar que se eu morresse antes dele, eu continuaria vivendo nele e, da mesma forma, se ele morresse primeiro, continuaria vivo em mim.

Parece bobagem isso, mas hoje sei que essa sensação carrega um teor emotivo que beira o espiritismo. Há nisso uma conexão espiritual muito forte. Hoje somos irmãos e compadres: sou padrinho de seu filho mais novo, Caíque.

Um moleque de sete anos, esperto e inteligente, mas que nasceu com graves problemas de saúde, e, João, que não conhecia nada muito além de Várzea Alegre, estava nas filas dos hospitais de Juazeiro, Crato, Barbalho e Fortaleza.

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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