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Jurani Clementino: Messianismo e intolerância

Jurani Clementino. Publicado em 18 de maio de 2020 às 12:59

Paraíba Online • Jurani Clementino: Messianismo e intolerância

Que direito teria um professor para afirmar que o aluno é burro? Que razões levaria uma cidadã a agredir com uma bandeirada na cabeça um profissional da imprensa? O que levaria um poderoso empresário da comunicação a dizer que os jornalistas deveriam ser apedrejados até morrer tão somente por noticiarem os casos de morte pela pandemia do novo coronavírus? O que faz com que pessoas provoquem um verdadeiro linchamento de um fotógrafo durante uma manifestação dita democrática?

No contexto atual a resposta é absurdamente simples: todas as vítimas, ou a maioria delas, discordam da postura e/ou do posicionamento político dos seus algozes. Chegamos ao ponto de um radicalismo e de uma intolerância assustadoras. O campo está terrivelmente minado e as bombas podem explodir a qualquer momento e em qualquer lugar.

Estamos deixando de lado o humanismo e partindo para a canalhice e a barbárie. São tempos de exceção. Para o seu professor você só presta e só e inteligente se comungar com os mesmos ideais dele; para o empresário da comunicação – que, ao que me parece, nada entende sobre a prática jornalística, você precisa omitir os fatos a ser noticiados; para a manifestante de bandeira em punho, o exercício da atividade jornalística – tão importante e necessária nesses tempos sombrios, estaria colocando em xeque a sua reputação, da mesma forma que o registro fotográfico de um profissional da área.

Até aqueles que estão na linha de frente, como os trabalhadores da saúde, são vítimas de agressões covardes, gratuitas e desnecessárias. Não há espaço para o diálogo, para as ironias, para a manifestação pública do pensamento, para a divulgação de fatos jornalísticos desde que esses não reforcem ou compactuem com as mesmas ideias e pensamentos dos agressores. Opressores que muitas vezes usam o nome de Deus para justificar a sua tirania.

Quando as ofensas, os insultos e a violência física não acontecem de maneira presencial, uma guerra virtual e um linchamento público via redes sociais, são acionados através de robôs que, em questão de horas, avacalham a vida da pessoa, expõem ao ridículo e a reduzem ao pó. Parafraseando Cazuza poderíamos nos perguntar: Que país é esse? Será que chegamos ao ponto de não tolerarmos a diferença!? Hoje são os opositores políticos e amanhã? Os gays, lésbicas, analfabetos, prostitutas, moradores de rua, deficientes físicos, negros, índios, quilombolas…?

Peço perdão aos leitores e ouvintes que esperavam hoje por mais uma crônica sobre memórias e histórias sertanejas, mas diante desse triste quadro que se apresenta diante de nós resolvi fazer estas provocações…. porque me calar diante de tudo isso seria o mesmo que compactuar com tais atos de covardia, canalhice e fraqueza humana. E jamais devemos silenciar diante da opressão.

Finalizo recorrendo a Mário Quintana e parafraseando o seu “Poeminha do Contra” – Eles passarão, nós passarinhos.

Jurani Clementino – Campina Grande 18 de maio de 2020

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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