Jurani Clementino: Manguear

Jurani Clementino. Publicado em 15 de fevereiro de 2020 às 11:50

Pedir esmolas é uma expressão comumente usada para definir uma ação que envolve pessoas solicitando qualquer tipo de ajuda. Esse auxílio pode ser uma pequena quantia em dinheiro dada por caridade a um pedinte como uma ação caridosa feita aos necessitados. Quem pede esmola é chamando geralmente e pejorativamente de esmoleu. Contudo existem outras classificações conceituais para quem realiza tal ação. Estes dias, um amigo que está desempregado, morando numa casa alugada numa favela por R$ 200,00, disse que um vizinho, sabendo da sua atual situação de vulnerabilidade social, convidou-o para manguear.

– Ei Créca (era assim que ele chamava-o), tú tá aí sem fazer nada mesmo, vamos manguear comigo!

Meu amigo disse que achou engaçado o convite e, logo de cara, recusou.

– Não dá certo, não, Papel.

Aquela expressão manguear soou como totalmente nova para mim. Nunca ouvi ninguém falar aquilo. Na mesma hora eu perguntei qual o significado de “manguear”. Então ele me disse que esse vizinho, de apelido Papel, é um “bebinho amalucado” que vive lá pelas ruas da favela vendendo picolé. Deve ter uns trinta anos, mora com uma coroa de aproximadamente cinquenta anos de idade e os dois mantém um relacionamento conturbado. Papel não sabe pronunciar uma palavra corretamente, mistura tudo formando neologismos. Sua esposa é tão analfabeta que tem vergonha até de falar. Não possui documento nenhum, não sabe o nome direito e nem de onde veio… Mesmo não sendo surda, nem muda ela prefere responder alguma pergunta feita por terceiros utilizando gestos e mímicas. Ela ainda costuma trair Papel com os bêbados da favela e, para isso, fecha a porta e deixa o coitado do lado de fora… enfim, uma situação social bem delicada. Já o tal Papel, quando não está vendendo os picolés ou “levando chifre”, vive pedindo esmolas pelas ruas dos bairros vizinhos.

Depois disso, concluí rindo:

– Então, Papel estava te chamado para pedir esmolas mais ele?

– Era! Manguear é o mesmo que pedir. Mas tá mais associado à malandragem, mesmo. Esperteza. Ele queria que eu o fizesse companhia a ele nessa empreitada. Só que é assim: ele pede, o povo dá, por exemplo, arroz, feijão, açúcar, macarrão… essas coisas e depois ele vende num mercadinho que tem lá perto de onde ele mora. O cara compra tudo bem baratinho, mas ele pega o dinheiro e troca por cachaça e maconha.

Essa história me remeteu à música “Vozes da Seca”, composta por Zé Dantas e interpretada por Luiz Gonzaga em 1953. Nela, os dois já alertavam para a questão dos pedintes, embora estivesse mais associado aos flagelados da seca. Os versos dizem algo como: “Mas doutô uma esmola a um homem que é são/ Ou lhe mata de vergonha ou vicia o cidadão”. Ao que me parece, Papel tá meio viciado em manguear.

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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