Jurani Clementino: Live Maria Bethânia

Jurani Clementino. Publicado em 12 de fevereiro de 2021 às 10:45

Amanhã, 13 de fevereiro, o Globoplay vai exibir, a partir das dez horas da noite, com sinal aberto para não assinantes, o show em comemoração as 56 anos de carreira da maior diva da música popular brasileira: Maria Bethânia. Eu já comentei aqui e, em praticamente em quase tudo que faço, a minha devoção pela irmã de Caetano Veloso e filha de dona Canô. Disse que a conheci em janeiro de 2011 quando, um amigo, me convidou para o show dela na praia de Tambaú, em João Pessoa. Aquilo foi uma realização para mim. Estar diante de uma das mais belas vozes desse país me causou um espanto tão grande, que, até hoje, ainda não fui capaz de me recompor.

Bethânia é, sem dúvidas, uma divindade no mundo da música. Sua voz é algo inexplicável, uma força da natureza que não se pode descrever. Ela simplesmente é. E basta. Depois daquele primeiro impacto passei a acompanhar a carreira e a história daquela baiana da cidade de Santo Amaro da Purificação. Cria do recôncavo. Que, em 1965, aos 17 anos, deixa a Bahia e vai para o Rio de Janeiro substituir outro grande nome da nossa música: Nara leão. Nara estava cansada de fazer uma peça de teatro musical, uma referência na chamada “música de protesto”, chamada “Opinião”, conheceu Bethânia numa passagem pela Bahia e resolveu indicá-la para substituí-la no teatro. Para isso, Maria Bethânia, teria que se mudar para o Rio de Janeiro. O pai dela só permitiu que a filha, menor de idade, fosse para a Cidade Maravilhosa com uma condição: acompanhada por Caetano, o irmão quatro anos mais velho do que ela. E dessa forma, o Rio de Janeiro dos anos de 1960, recebia, de uma só vez, Maria Bethânia e Caetano Veloso.

Ele já era maior de idade e foi apenas fazer companhia a irmã. Mas chegando lá Caetano também mostrou seu talento. Criou sua arte e deixou Bethânia seguir seu rumo. A filha de Dona Canô, foi simplesmente uma revelação. Cantando aquela coleção de músicas-manifesto, Maria Bethânia era uma coisa impressionante. A mídia e os críticos reconheciam ali algo diferente. Uma voz que ecoava com a força, a coragem e a resistência do povo nordestino. Foi aquele meu encontro, meio que por acaso, com a diva baiana que me fez pesquisar sobre ela. Que também me levou a outros shows. Em 2016 quando Bethânia completou 50 anos de carreira, eu fiz questão de ir ao show comemorativo. Ela veio a João Pessoa novamente. E eu estava lá. Atento, ouvindo, sentindo, incorporando a arte quase mística, quase sobrenatural da irmã de Caetano. Passei dias sentindo aquela energia. Em 2019, um novo encontro. Dessa vez em Recife. Eu novamente diante da arte de Bethânia. Ela sempre potente. Sempre dona do dom. Recitando trechos de Clarice Lispector. Intercalando música, teatro, literatura. Bethânia completamente dona de si. Relacionando-se com o palco como se ali, naquele espaço sagrado, habitassem seres sobrenaturais. Seus orixás? Talvez. Interagindo com as divindades que a acompanham nos shows. Você sente a energia.

Lembro que, nesses shows, ao final o público se aproxima do palco. Eu não tive coragem. Fiquei onde estava. Parado. Completamente anestesiado. Não me movi um centímetro. Tocado pelo poder inexplicável daquela mulher magra, baixa, envelhecida, mas de uma vitalidade invejável. Uma mulher de setenta e poucos anos, mas com uma voz poderosa. Não desafina, não destoa, segue tudo conforme o script. Bethânia é uma coisa de outro mundo. Seu poder e sua energia deixam qualquer um boquiaberto. Eu fiquei assim. Eu estou assim. Há dez anos. Desde janeiro de 2011.

Campina Grande – PB 12 de fevereiro de 2021

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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