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Jurani Clementino: Lara, a gaiola e o passarinho

Jurani Clementino. Publicado em 12 de junho de 2020 às 11:06

Lara parece um anjinho fugido daquelas igrejas barrocas de Minas Gerais. Baixinha, cabelos encaracolados, olhinhos apertados, uma danação em miniatura. Não para quieta. Resultado natural da mistura entre um baiano com uma cearense. Tem pouco mais de dois anos e não tem medo de nada. Outro dia estava agarrada no rabo de um tiú que o pai tinha acabado de balear. O réptil ainda estava vivo. Ela é minha sobrinha mais nova e também minha afilhada. Batizado mais difícil nunca tinha visto. Teve a data remarcada umas duas vezes. Não dava certo devido às agendas dos padrinhos: uma madrinha vinha da Bahia, um padrinho de São Paulo e eu teria que me deslocar a Paraíba.

Definida a data para a solenidade religiosa, ainda tiveram outros contratempos. Os pais dela haviam preparado uma festa com um ano de antecedência, mas as mesas alugadas para o evento familiar vieram erradas e foi preciso trocar. O padrinho de São Paulo não pode vir e foi substituído às pressas. O porco que ia ser abatido adoeceu e precisaram arranjar outro. Os dois carros que levaram os pais e padrinhos até a igreja deram o prego e chegamos lá em cima da hora. Na igreja ela estava até animada, correndo pra lá e pra cá e brincando com todo mundo. Mas quando padre chegou ela abriu o berreiro é só parou depois da celebração.

Esses dias, Lara chegou lá em casa e se engraçou de um passarinho que, não sei por qual motivo, meu pai havia aprisionado numa gaiola. Era um desses golinhos campeiros que, na sua completa ingenuidade, vinha visitar outro que, por falta de sorte, estava preso numa gaiola pendurada no alpendre. Lara queria brincar com aquela ave a todo custo. Entregaram-na a gaiola e ela ficou lá mexendo. Derramou a água, colocou tomate para a ave e levou passarinho e gaiola para debaixo de uma churrasqueira que fica no alpendre e ela teima em chamar de sua casinha. Quando todo mundo havia se esquecido dela e seu inseparável passarinho, Lara tratou de praticar um ato heroico. A revelia de todos abriu a porta da gaiola e libertou a ave que ali estava encarcerada. Na mesma hora, sem que ninguém a flagrasse, ela fechou a pequena cadeia e fingiu que nada havia ocorrido.

Ao tomarem conhecimento de que a ave não estava dentro da gaiola e perguntaram pra ela o que tinha acontecido, aquela menina travessa não teve dúvidas. Botou a culpa no primo Caio. Disse que ele havia libertado o pássaro. E fingiu completa inocência de suas peripécias infantis.

Jurani Clementino – Campina Grande – PB

12 de junho de 2020

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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