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Jurani Clementino: Lamparina e querosene jacaré

Jurani Clementino. Publicado em 8 de abril de 2020 às 23:50

O uso da lamparina, lampiões ou candeeiros, para clarear as noites sertanejas, foi algo muito comum até o final do século passado. É provável que algumas regiões mais remotas ainda utilizem esse engenhoso recurso de iluminação para vencer a escuridão por esse país afora. O fato é que aquelas luminárias arcaicas podiam ser improvisadas artesanalmente ou adquiridas nas feiras livres das cidades. Trata-se de um recipiente pequeno que acumulava algum tipo de óleo, tinha uma abertura por onde colocávamos esse produto e por onde também saía uma espécie de pavio feito de algodão. A substância mais comum para provocar aquele fogo era um óleo destilado do petróleo bastante conhecido como querosene. A marca mais comum, utilizada por aquelas redondezas, era querosene jacaré. A primeira imagem desse réptil que eu lembro ter visto na minha vida, foi estampada naquelas latas de querosene. 

Comprávamos nas bodegas rurais ou mercadinhos urbanos. Tinha desde latas contendo cinco, dez litros, até em pequena quantidade de um litro apenas. Mas nas bodegas do interior podíamos adquirir o querosene em medidas de volume muito menores, como por exemplo: um mercado de óleo que muitas vezes só reabastecia uma única lamparina. Todo final do dia uma pessoa da casa, geralmente as mulheres, ficava responsável por verificar se alguma das luminárias estava vazia e tratava logo de preencher com o destilado de petróleo. Anoitecia e cada cômodo principal da casa como sala, quarto e cozinha possuía um pequeno candeeiro. Era comum ainda, ao se deslocar para outro cômodo escuro, levar na mão aquela engenhoca luminosa consigo. 

Toda vez que o pavio, feito de algodão, acabava era necessário trocá-lo. Para construir os pavios das lamparinas, as mulheres trançavam a lã do algodão de modo que formavam uma espécie de cordão grosso. Era esse cordão que, em contato com o querosene dentro da lamparina, conduzia o óleo até a parte externa dos lampiões mantendo assim as chamas acesas. A fumaça provocada por aquele querosene era insuportável. Preta, fedorenta, suja. Onde se colocava uma lamparina ficava a marca de fumaça na parede. Quando ainda era aluno do Ensino Fundamental, estudei muitas noites com o auxílio da luz da lamparina. Não tinha a menor noção do risco que eu corria, porque às vezes, deitado na cama mesmo, completamente cansado, então eu pegava no sono por cima dos livros e próximo ao fogo. 

Como dormia na casa de minha avó paterna, ela, sempre cuidadosa, vinha levemente e retirava, de cima da cama, aquele candeeiro, os cadernos e livros que ali estavam. Hoje consigo compreender todo o risco que corri caso me mexesse e derrubasse aquela lamparina na cama e provocasse um incêndio. Por isso, ainda sou muito grato a minha avó, Dona Nenê, por tudo que ela fez.  Sem o fogo daquela lamparina, talvez, não tivesse chegado até aqui, mas aquela mesma luz, que iluminava as letras e me ajudava a escrever as palavras, podia ter destruído todos os planos daquele menino sonhador.

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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