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Jurani Clementino: João Grilo, Chicó e Ualmarim Quépes

Jurani Clementino. Publicado em 16 de janeiro de 2020 às 11:15

Em janeiro de 1999, quando o texto de Ariano Suassuna “Auto da Compadecida” foi adaptado para TV em formato de minissérie, e exibido em horário nobre, eu não assisti porque, ao que me lembro, não tinha televisão na casa de meus pais e também achava muito tarde para ficar acordado. Eu perdia um sucesso exibido pela TV Globo entre os dias cinco e oito de janeiro daquele ano. Mas, pra minha sorte, no outro dia, um primo e amigo de infância, de nome Ualmarim Quépes, me contava tudo o que havia passado na TV. E contava com uma riqueza tão grande de detalhes que eu conseguia imaginar todas as cenas e ria com tanta facilidade que parecia que estava vendo todas as peripécias geniais de João grilo e a ingenuidade meio idiota de seu amigo Chicó. Quépes é um dos filhos de meu padrinho Antônio Augusto e todos os seus irmãos tem nomes estranhos porque, meu padrinho, gostava de assistir os jogos da Copa do Mundo e parece que decorava os nomes mais esquisitos dos jogadores para depois colocar nos meninos que nasciam em sua casa. Então os irmãos de Quépes se chamam: Ualmair, Rubenik e Boniec.

Bem, mas voltando a adaptação do “Auto da Compadecida”, recordo que foram quatro episódios e todos os dias, pela manhã, enquanto colocava água nas plantas, Quepinho ia me contando tudo. Cena po cena. Ele decorava até a sequência o que facilitava a minha compreensão da obra. Nem conhecia ainda o livro de Ariano. Na verdade, desconhecia por completo Ariano Suassuna. Era o meu desvelar do homem do Movimento Armorial. Mas depois que ouvi esses relatos sobre João Grilo, ainda procurei, em vão, o texto de Ariano para, junto com os colegas de escola, montar uma peça.

Em treze de Agosto de 2002, já morando na Paraíba, tive a satisfação de assistir a uma palestra de Ariano Suassuna no Teatro Municipal Severino Cabral em Campina Grande. Depois da sua brilhante e engraçadíssima exposição, levei o livro “Auto da Compadecida” para ele autografar. Ainda hoje guardo aquela dedicatória com muito carinho. Em 2004 quando entrei na Televisão Paraíba, afiliada da Rede Globo, como estagiário da produção, descobri que o meu professor de telejornalismo, Rômulo Azevedo, tinha acompanhado um dia de gravação da minissérie “O Auto da Compadecida” nas cidades paraibanas de Cabaceiras e Taperoá e fui buscar a matéria nos arquivos da emissora. Vi os personagens se preparando para as filmagens, vi os atores Matheus Nachtergaele e Selton Melo antes de incorporarem, respectivamente, os queridos, João Grilo e Chicó, vi o padre, o padeiro, o cangaceiro, o major… todos ali e, novamente, viajei naquela história. Devido ao grande sucesso, a minissérie foi lançada, um ano depois, em formato de filme e levou muita gente ao cinema. Foi quando eu finalmente consegui assistir e verificar todos os detalhes que meu amigo de infância havia me narrado.

Desde então, a história de João Grilo me persegue. Vez por outra, quando entro numa sala de aula, os alunos dizem que eu tenho/tinha traços físicos parecidos com os do ator que deu vida ao personagem. Também na faculdade, uma aluna, apaixonada pela história do “amarelo mais esperto do Nordeste”, fez um Trabalho de Conclusão de Curso, analisando a folkcomunicação presente na construção do personagem João Grilo e ficávamos horas trocando ideias e compartilhando leituras. Ano passado, um aluno da UEPB ainda me convidou para orientar um TCC onde ele revisitava os espaços de gravação da minissérie, mas depois ele desistiu da minha orientação e mandou um e-mail se desculpando. Teria ele encontrado outro professor mais experiente no assunto para ajudá-lo. Fiquei decepcionado. Queria novamente reviver essas lembranças.

Mas nem tudo estava perdido, duas décadas depois, a TV Globo voltou a apresentar esse sucesso que, ao meu ver, continua comovendo e divertindo as novas gerações. Tanto a obra literária quanto a adaptação foram tão bem elaboraras que todas as vezes que a gente ler ou assiste parece que foi a primeira. Rimos sempre como se estivéssemos diante do novo. É um trabalho tão bem feito que você dar risada mesmo quando narrada por terceiros como foi o meu caso diante da narrativa de Quépe. Meu amigo de nome estranho de jogador de futebol europeu: Ualmarim Quépes.

Jurani Clementino

Campina Grande – PB 16 de janeiro de 2020

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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