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Jurani Clementino: Ironias e pandemias

Jurani Clementino. Publicado em 30 de abril de 2020 às 8:52

Foto: arquivo pessoal

Campina Grande protagonizou essa semana uma lamentável cena em meio ao avanço do novo coronavírus. As imagens de funcionários ajoelhadas diante das portas fechadas do comércio ganharam o mundo e repercutiram de maneira negativa. Vi alguns coleguinhas da imprensa defendendo aquelas fotografias do protesto pela abertura do comércio, ocorrido na última segunda feira, dizendo que tudo não se tratava de um belo “momento de oração”. Com base nessas defesas, me veio à memória, um fato ocorrido, aqui na Rainha da Borborema, em setembro de 2007.

Na época a VINACC (uma ONG terrivelmente cristã e desde aquela época liderada, salvo engano, por um ferrenho defensor do bolsonarismo) espalhou uma série de outdoors pela cidade com a seguinte frase: “HOMOSSEXUALISMO: e fez Deus homem e mulher e viu que era bom”. Isso deu um bafafá danado. O Ministério Público entrou em ação. Já fazia uma semana da polêmica e parte da mídia conservadora de Campina (pra variar) não queria participar nas discussões que envolviam a igreja, grupos minoritários, preconceito de toda ordem, enfim… Eu já era jornalista, trabalhava numa emissora de televisão local e sabia que aquilo ia repercutir nacionalmente. Mas a TV se recusava a cobrir o caso. Por segurança, pedi a um colega de trabalho para (às escondidas) fazer umas imagens daqueles outdoors. Algo me dizia que, embora a TV estivesse “cagando e andando” para aquilo, em algum momento, a gente ia precisar. 

Até que, poucos dias depois do início daquele imbróglio, um blog, não sei de onde, publicou uma nota sobre a polêmica. A Folha de São Paulo viu. No dia seguinte estava lá: “Polêmica na Paraíba…” resultado: a produção de “O Jornal da Globo” ligou na mesma hora: queremos uma reportagem sobre a polêmica dos outdoors em Campina. Desespero. A TV não tinha dado uma nota sobre o assunto. Já não havia mais outdoor na cidade porque o MP ordenou que todos fossem retirados, sob pena de pesadas multas diárias…. Deixei meus coleguinhas conservadores se desesperarem um pouquinho, depois, pacientemente, fui na ilha de edição, peguei a fita que lá estava escondida e disse: façam a matéria para o Jornal da Globo, as imagens estão todas aí.

Então, cuidado com essas defesas sem sentido. O que aconteceu em Campina Grande em 2007 e está acontecendo agora é sério. E necessita de nossa reflexão.

Bom, pra finalizar, um breve comentário sobre outro fato, este mais recente. Quarenta dias sem pisar no bar de uma amiga minha. Ontem resolvi mandar uma mensagem, via WhatsApp, para saber as novidades. O estabelecimento continua funcionando, claro, às escondidas. Mas quando comecei a perguntar pelos conhecidos ela foi me atualizando sobre cada um deles. Então, eu quis saber por onde andava uma de suas garçonetes. A reposta foi a seguinte:

– Ah, professor, ela se intrigou de mim! Já me bloqueou no celular, separou do presidiário dela, arrumou outro (também presidiário), abriu um espetinho lá pras bandas das Malvinas… mas lá é tanto bandido. Se o Sr vê! O professor sabe que aqui no meu bar também aparece esse tipo de gente, mas eu não apoio coisa errada. Pego briga, mando embora, só que lá… sabe o que foi que ela fez: mandou instalar meio mundo de tomada pelos cantos de parede que é para os presidiários, esses que foram liberados agora com essa pandemia, recarregarem as tornozeleiras eletrônicas. Foi!

Caí na gargalhada e disse, em tom de despedida: Beijos! Qualquer dia apareço por aí…

Jurani Clementino – Campina Grande 29 de abril de 2019

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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