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Jurani Clementino: Gratidão é amor correspondido

Jurani Clementino. Publicado em 6 de junho de 2020 às 7:43

Ontem recebi uma imagem muito simbólica para mim. Nela estava uma senhora de 88 anos, sentada numa cadeira de rodas e completamente concentrada na leitura do livro “Forró no Sítio”. Tratava-se de dona Edite Maria da Conceição, tia Edite. Ela é irmã de dona Nenê, minha avó paterna, e uma das seis filhas de seu Malaquias Miguel da Silva, meu bisavô. Seu Malaquias era muito conhecido no distrito do Canindezinho. Paraibano de São Bento de Brejo do Cruz, chegou ao Ceará no início do século passado e fez morada nos sítios Xiquexique, Lagoa Comprida, Queixada e depois residiu até seu falecimento, aos 93 anos, numa dessas casas de arrasto, localizada no sítio Juazeirinho.

Homem da roça desejava muito ter um filho homem, mas os primeiros a nascer e se criar, foram as mulheres. Todas educadas no cabo da enxada. Mulheres difíceis de encontrar nos dias atuais. Elas não tinham qualquer vaidade feminina e encaravam o serviço na agricultura com a coragem que faltava a muitos homens. Repetindo as atividades do pai, elas aprenderam a fazer cerca, cuidar do roçado, limpar, desmatar, colher, plantar… Mesmo depois de casadas as filhas de seu Malaquias ajudavam os maridos na luta diária. E foram tomando tanto gosto por aquilo que as atividades de casa soavam estranhas para elas.

A imagem de tia Edite, lendo atentamente o meu livro me tocou profundamente. Existem razões para isso. Em meados dos anos de 1990, sem ter como estudar no sítio, minha avó pediu para que Edite, sua irmã um pouco mais jovem, me recebesse em sua casa, localizada na Rua Zé Felipe, centro de Várzea Alegre, para que eu pudesse dar continuidade aos meus estudos. Ela estava lá, não porque gostasse da cidade, mas para que alguns de seus netos também estudassem. E sem cerimônia aquela senhora atendeu ao pedido da irmã. Passei uns dois anos residindo com ela. Completamente desconectada com o espaço urbano, tia Edite ocupava o tempo cuidando das atividades domésticas e fazendo crochê. Preparava nosso alimento, cuidava da gente com maior carinho e esperava ansiosamente o final de semana para voltar para sítio. Era lá que ela se realizava.

Nunca foi grosseira com nenhum de nós. Nunca mandou que fizéssemos nada. Mesmo quando faltava água nas torneiras, algo corriqueiro naquela época, ela não exigia da gente que fosse buscar. Mas nós sabíamos que era necessário fazer aquilo. Então saímos em grupo e nos dirigíamos até os cacimbões que tinham lá pras bandas do bairro Patos e voltávamos com uma água salobra que servia para lavar louça, limpar a casa, lavar a roupa e para o banho. Era uma casinha pequena de três cômodos. A gente se dividia entre o quarto e a sala. Levantávamos cedo e dormíamos com o cair da noite. As vezes acompanhávamos uma ou outra novela numa minúscula TV em preto e branco. Passado esse tempo fui residir com minha irmã, numa casa, ainda menor, que meu pai construiu na vila Cacilda, bairro Betânia.

Há quase um ano, tia Edite sofreu uma queda no banheiro e quebrou o osso da perna. Os médicos disseram que era perigoso realizar qualquer intervenção cirúrgica por conta do avançar da idade. Desde então ela vive numa cadeira de rodas e com o apoio dos filhos que se revezam para ajudá-la. Antes conversadeira hoje ela quase não fala nada. Dorme pouco ocupa as horas jogando cartas com algum visitante. Receber a imagem dela com o livro “Forró no Sítio” nas mãos e lendo minhas crônicas me trouxe um pouco de alívio e alegria nesses tempos tais cruéis. Só queria que ela soubesse disso. Ela é parte importante da minha história e ajudou muito na minha caminhada.

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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