Fechar

logo

Fechar

Jurani Clementino: Finados

Jurani Clementino. Publicado em 29 de outubro de 2020 às 20:32

Na próxima segunda feira é celebrado o Dia de Finados, ou dia dos mortos. Trata-se de um feriado religioso, dedicado a orações e homenagens aos que já faleceram. A palavra “finados” significa exatamente isso, algo que findou, chegou ao fim, acabou ou morreu. Aqui no Brasil, o Dia de Finados faz parte de uma tradição que vem sendo repetida por gerações e gerações e as pessoas costumam, nesse dia visitar as sepulturas dos entes queridos que já morreram, enfeitar seus túmulos com flores, acender velas, fazer uma oração, deixar um bilhete ou uma fotografia sobre a lápide, pintar a pedra, retocar as cruzes que remetem as memórias de alguém falecido.

Quando menino, eu gostava demais do Dia de Finados. Acho que era porque a gente morava no sítio e eu adorava ir pra cidade. Não podia ver um carro ligado que subia na carroceria e, pra me tirar era uma luta. Jesus, que vergonha, mas era assim mesmo. Normalmente meus pais impediam essas viagens. “Que dando tú vai ver na rua menino! Desce daí, agora”. E lá ia eu saltar, quando não era retirado, a força, da carroceria da C10 de meu avô. Mas naqueles Dias de Finados a história era outra. Eu finalmente podia ir pra rua. Ia quase todo mundo, não era a feira, e, portanto, isso ajudava na permissão de meus pais para que eu fosse até a cidade. Aquilo era uma felicidade danada. Sentava naquele pneu de estepe, me segurava num ferro logo acima da boleia e lá se ia eu com os cabelos loiros balançando ao vento.

Mas somente muitos anos depois é que eu fui perceber que a minha felicidade, meio clandestina, não tinha nada a ver com os mortos em si. Ou necessariamente com o Dia dos Mortos. Tinha tudo a ver com a minha liberdade para bater pernas na carroceria de uma C10 da Chevrolet. Que ao contrario de outras culturas a gente não celebra o fim da vida. A gente lamenta profundamente essas perdas. A morte pra nós significa luto, dor, sofrimento… E isso é naturalizado na gente, incorporado. Mas em 2014 quando estive na cidade do México, fui tomado por um susto ao perceber a maneira como eles lidam com a morte. Pra todo canto que você olha tem uma caveira colorida. Lá, as celebrações do Dia de Finados começam no dia 31 de outubro e só se encerram com uma grande festa publica nas ruas e avenidas três dias depois. É animação pra todo lado e as pessoas zombam da morte enfeitando as ruas e organizando desfiles. De maneira geral, o povo mexicano acredita que as almas dos que já se foram visitam seus parentes nessa data e é costume também ter altares decorados e repletos com comidas dentro de casa. Eles os enfeitam com flores, caveiras, fazem desfiles pelas ruas levando retratos das pessoas mortas e pequenas oferendas. A morte pra eles é simbolizada na figura de uma linda mulher chamada Catrina.

A violenta civilização espanhola destruiu muita coisa no México, mas não conseguiu acabar com a tradição herdada dos astecas em sua relação com os mortos. Para esses povos a morte de uma pessoa não era motivo de tristeza, mas sim de felicidade, porque ela estava morando com os Deuses. Por isso, eles tinham no seu calendário um mês inteiro dedicado à morte, com várias festas animadas cheias de bebidas, comidas e muita diversão. Se o menino Jurani tivesse nascido mais acima da linha do equador, certamente atribuiria outro sentido ao dia dos mortos. Sua felicidade seria completa, tanto por poder andar de carro até a cidade, quanto por ser um dia de alegria, festa, celebração e devoção ao fim da vida. Depois cresci e incorporei esse sentimento comum por aqui de que o dia de finados não é necessariamente um dia feliz, alegre, festivo. Nos cemitérios as pessoas passeiam em silêncio, visitam os túmulos, param, meditam e esboçam poucos sorrisos.

Também me recordo que no dia dois de novembro de 1997, uma manhã de domingo, eu acordei e fui ligar o rádio da casa de meu avô. Achei estranho que minha tia não havia sintonizado aquele aparelho para ouvir, como de costume, o programa especial com as musicas do Rei Roberto Carlos. Como era no domingo, eu gostava de ficar na cama, entre dormindo e acordado, ouvindo aquelas canções. Mas quando cheguei perto do rádio e apertei o botão, minha tia falou: ei, não liga o rádio não. Tio Vicente amanheceu morto. Eu tive um susto. Era o sanfoneiro da minha comunidade. Morreu dormindo, como costumam dizer. Ou, como o matuto costuma falar, do alto de sua ingenuidade e inocência: “acordou morto”. Era dia de finados. Imagina aí. A pessoa passou a vida toda fazendo festa, tocando forró, promovendo a alegria da galera e tem a infelicidade de morrer logo no Dia de Finados. Naquele dois de novembro e durante as semanas seguintes não teve rádio ligado, não teve forró, não teve qualquer manifestação de contentamento. Porque aqui nós não celebramos a morte. Nós lamentamos.

Share this page to Telegram

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Mais colunas de Jurani Clementino
Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

[email protected]

Arquivo da Coluna

Arquivo 2018 Arquivo 2017 Arquivo 2016 Arquivo 2015

2018 - Paraiba Online - Todos os direitos reservados.

BeeCube