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Jurani Clementino: Fideralina Augusto – o coronelismo de saias no sertão

Jurani Clementino. Publicado em 9 de setembro de 2020 às 11:43

Essa semana eu assisti a um vídeo documentário produzido pela TV Assembleia do Estado do Ceará, contando a história de Dona Fideralina Augusto Lima. Eu já tinha ouvido falar sobre a figura lendária dessa mulher que habitou o município de Lavras da Mangabeira e manteve o poder político e econômico da região Cariri, no final do século XIX e início do século XX. Quando vi pela primeira vez o romance Memorial de Maria Moura, escrito pela cearense Rachel de Queiroz, procurei saber que mulher teria inspirado a autora para criar a tão destemida figura feminina ali representada e descobri que tinha sido uma fazendeira muito influente que viveu no município de Lavras da Mangabeira no período da República Velha e nos tempos dos coronéis. Tempos depois, li o livro biográfico Padre Cícero: poder, fé e guerra no sertão, do jornalista e escritor Lira Neto, e nele encontrei novamente uma referencia a essa legendária mulher que marcou época na história do Ceará e que enfrentava seus adversários com truculência.

O que eu não sabia, até então, era que Dona Fideralina Augusto Lima tinha sido casada com o varzealegrense Hildefonso Correia Lima, que pertencia a aristocracia rural de Várzea Alegre, era dono de muitas terras e engenhos de rapadura. O casal teve onze filhos. Dois deles se destacaram na política cearense: Honório Lima e Gustavo Augusto. O primeiro vivia por Fortaleza onde era deputado estadual, mas acumulava ainda o cargo de intendente de Lavras. Já Gustavo, seu irmão, tinha interesse em assumir a intendência da cidade natal. Sua mãe tentou resolver essa questão com o filho mais velho que não teve acordo. Queria e não abria mão dos dois cargos políticos. Era início do século passado e quem mandava eram os coronéis. Fideralina, à revelia do filho Honório, mas com a ajuda dos coronéis, nomeou o filho Gustavo como intendente de Lavras da Mangabeira, o que hoje conhecemos como prefeito. Em novembro de 1907, ao saber das tramoias da mãe para com um cargo que julgava também pertencer a ele, Honório Lima saiu da cidade de Fortaleza, com cerca de 400 homens, e invadiu o município de Lavras com o objetivo de escorraçar da prefeitura o próprio irmão. Mas quando soube dos planos do filho, a velha matriarca mandou reunir seus homens e expulsou o Honório dali. Embora fosse conhecida pelos atos de violência em suas ações Fideralina tinha dito aos homens antes de partir para o enfrentamento: “Quem atirar no torto, morre”. Torto era o apelido de Honório por conta do estrabismo no olho. Honório era zarolho.

Outro fato que abalou a historia da família de Fideralina aconteceu no ano de 1902 em Princesa Isabel na Paraíba. O neto dela, um médico de nome Hildefonso Lacerda Leite foi assassinado naquela cidade paraibana por motivos passionais. Indignada como aquele crime, Fideralina recrutou 150 homens que trabalhavam para vários coronéis do Cariri e mandou vinga-los a morte do neto. Eles invadiram Princesa, provocaram uma carnificina e trouxeram o cadáver de Hildefonso e segundo relatos teriam matado os assassinos do neto.

Filha mais velha de um major que foi morto aos cinquenta e poucos anos por razões políticas, os Augusto Lima sempre mandaram em Lavras. Com a morte do pai, Fideralina assume o poder e exerce esse poder na politica e na economia da sociedade cearense por mais de meio século. Mandava e desmandava. Botava e tirava da politica quem quer que seja. Aliou-se aos mais poderosos coronéis do sertão, era amiga de Padre Cícero, tinha uma casa grande no centro da cidade de Lavras, mas gostava mesmo era de ficar na fazenda de nome Tatu. Lá ela criava gado, possuía um engenho, uma capela e uma Casa Grande cheia de escravos. Dizem até que ela usava a fazendo para a reprodução dos negros. A escravidão era uma fonte de renda e a poderosa Fideralina estimulava a reprodução dos escravos para vender os cativos ainda criança.

Fideralina Augusto Lima nasceu no município de Lavras da Mangabeira em agosto de 1832, casou-se aos 23 anos e ficou viúva com pouco mais de 50 anos. Faleceu em julho de 1919, aos 86 anos de idade.

Jurani Clementino – Campina Grande – PB
02 de outubro de 2019

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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