Fechar

logo

Fechar

Jurani Clementino: Fatinha, desavergonhadamente feliz…

Jurani Clementino. Publicado em 26 de fevereiro de 2020 às 12:02

Depois dos cinco dias de folia pelas ruas, avenidas e parques de Várzea Alegre, festas que anualmente colocam a cidade entre um dos pontos turísticos mais visitados do Ceará durante o carnaval, a quarta feira de cinzas chegou com a triste notícia do falecimento da professora Fátima Ferreira da Silva. Nas redes sociais, os amigos lamentaram a morte da educadora que lutava contra o câncer há muitos anos. Sempre com alegria, coragem e fé, Fatinha de João Grande, como era popularmente conhecida, encarou a doença e buscou todos os recursos para se manter firme e forte. Engraçada, brincalhona, com um invejável espírito de amor a vida, ela nunca demonstrou publicamente qualquer medo para com a doença que, a cada dia, se mostrava mais forte e devastadora. Enfrentou o tratamento, tirou onda com a queda de cabelos, perdeu peso, viu a pele ganhar outra tonalidade, adotou chapéu na cabeça e fita no pescoço para tornar aquele inevitável despedida num momento de celebração à vida. 

Mas Fatinha sempre foi assim. Quando a conheci, no final da década de 1990, ela coordenava o Programa de Educação de Jovens e Adultos – o EJA, em Várzea Alegre. Participei de uma seleção para professores e uma turma de aproximadamente vinte pessoas ligadas à educação embarcou para Uberlândia, Minhas Gerais, em Agosto de 1999. Saímos de Várzea Alegre, no meio da noite e pegamos um voo, pela manhã, em Fortaleza. Quando chegamos ao nosso destino já era final de tarde. Foram uns dez dias participando de cursos, palestras e oficinas na Universidade Federal de Uberlândia. Todo mundo queria tá próximo dela porque o seu espírito jovial, suas tiradas engraçadas, seu bom humor sempre sarcástico e inteligente contagiavam a todos. 

Durante esse período Fatinha resolveu aproveitar um final de semana, pegar um ônibus, e visitar uns parentes em São Paulo. Quando ela voltou, não sei por qual razão, ela sofreu uma queda ao descer do ônibus e ficou com um lado do corpo completamente roxo. Todo mundo querendo cuidar dela, tentando amenizar a situação. Na época, ela estava um pouco acima do peso e isso certamente contribuiu mais ainda para as consequências do tombo. A professora voltou toda roxa para o Ceará, mas aquilo não a impediu de participar das atividades finais do curso. 

Vinte anos se passaram e depois de um longo período de orações, luta e esperança… acompanhamos, com pesar, a professora Fatinha de João Grande sofrer o seu último tombo. Ela nos deixa um legado que envolve além do amor pela educação, um indisfarçável carinho pela vida. Resistiu o quanto pode, não teve vergonha de expor a ação covarde e devastadora do câncer. Era desavergonhadamente feliz. Brigou e brincou com ele como se estivesse transformando a dor em algo lúdico. Porque eram assim as suas aulas, porque foi assim a sua vida, porque infelizmente era assim que tinha que ser…

        Jurani Clementino

Campina Grande – 26 de fev de 2020

Share this page to Telegram

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Mais colunas de Jurani Clementino
Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

[email protected]

Arquivo da Coluna

Arquivo 2018 Arquivo 2017 Arquivo 2016 Arquivo 2015

2018 - Paraiba Online - Todos os direitos reservados.

BeeCube