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Jurani Clementino: Do roçado cearense às academias paraibanas

Jurani Clementino. Publicado em 23 de novembro de 2019 às 19:27

Senhor presidente da Academia de Letras de Campina Grande, excelentíssimo prefeito de Várzea Alegre, senhoras e senhores, familiares, acadêmicos, amigos, colegas professores, queridos alunos… boa noite! É com imensa satisfação e profundo respeito que inicio essa minha fala, diante de vocês, nesse dia tão simbólico e representativo para mim, para a minha família e para todos que me admiram. Em 26 de março de 1994, enquanto Hermano José proferia o seu discurso de posse, algo parecido ao que eu faço agora, esse menino tinha acabado de completar quinze anos, morava num sítio que não possuía energia elétrica, tinha compulsoriamente parado de estudar porque havia concluído a quarta série do Ensino Fundamental numa escola rural e não havendo as outras séries ali, não tendo como ele ir morar na cidade nem transporte para levá-lo até a escola na zona urbana, aquele menino ficou um ano fora do colégio. Em meio aquelas dificuldades, meu pai, costumava dizer, que pra ser filho de pobre, o que eu já tinha aprendido, bastava. Mas eu sabia que ainda não era suficiente. Acredito que meu pai também não falava aquilo por maldade. Ele mesmo tinha sido vítima de sonhos adiados e muitos deles jamais realizados.

Foi meu pai, seu Aldo Clementino, quem despertou em mim o interesse pela cultura popular. Ele é um poeta nato. Vivia participando das cantorias de viola, circulando angustiado entre violeiros e repentistas porque nunca aprendeu a dedilhar as cordas daquele instrumento musical. Mas sempre que o convocavam para um desafio, ele topava sem a menor cerimônia. Deixou de frequentar esses espaços de sociabilidade rural (leia-se as cantorias de pé de parede) porque, um dia, “massacrou” tanto o seu “rival”, que o filho dele, ofendido, veio tomar satisfação. Não entendeu que tudo aquilo não passava de uma brincadeira. Meu pai ficou triste. Desde então, fez de sua poesia, um protesto silencioso. Evitou ir às cantorias de viola que aconteciam pelas redondezas. Passou a escrever seus versos e esconder numa bolsa velha de guardar quinquilharias e que ficava atrás da porta do quarto de dormir. Escrevia meio que envergonhado. No fundo sabia que nunca quis magoar ninguém. Não estava em seus planos atingir qualquer que fosse o poeta, repentista, violeiro. Ali eram todos seus amigos.

Costumo dizer, que minha mãe, ao contrário de meu pai, sempre foi muito racional. Dividiu toda a vida entre a escola primária do Sítio Queixada, onde foi professora por 25 anos, e a casa onde sete filhos esperavam por cuidados. Até hoje levanta cedo, dar início a uma luta interminável e é a ultima a se recolher. Sempre foi assim. Dar um trabalho danado pra deixar aquela cozinha e vive mexendo naqueles troços que ali se encontram. Cada dia que passa a gente percebe que está cada vez mais difícil tirá-la do pé do fogão a lenha que ela mantém acesso cotidianamente. Hoje, mais uma vez, eu perdi para aquele fogão.

Fiz esse preambulo para dizer que cresci ao lado e sob os cuidados dessas duas figuras importantíssimas para a minha vida. Figuras que comemoram as minhas conquistas em profundo silêncio, de longe, quase nunca frequentam esses espaços de celebração pública.  Quis com isso dizer ainda que em 1994, aos quinze anos de idade, eu era um menino abestalhado, sonhador, mas sem muita noção de nada. Não conhecia muita coisa. Até a cidade que fica a 18 km do sítio onde residem meus pais eu ia pouco. Era uma rotina que compreendia o trabalho no roçado alternado com as atividades escolares. Fui alfabetizado por minha tia Diacisa, que era professora, e ensinava na escola Pedro Alexandre de Sousa. Era uma escolinha rural com cheiro de coco de andorinhas e repleta de pardais no telhado. As aves construíam ninhos, chocavam os ovos e criavam seus filhotes ali. Em compensação sujavam as paredes e derrubavam os bagaços dos ninhos na sala de aula. Era apenas uma sala de aula. Ali aprendemos que juntando as letras formávamos sílabas e que unindo as sílabas tínhamos palavras. Foi um período maravilhoso da minha vida. Era o descobrimento do mundo letrado. Depois disso passei a ler tudo que aparecia na minha frente. Decifrando o que estava escrito nos cartazes das paredes, nos pequenos livros, nos jornais velhos que embrulhavam o sabão comprado na bodega de seu Antônio Ferreira.

Coincidência ou não, o fato é que naquele mesmo ano de 94, o professor Hermano José Bezerra de Lima, assumia essa cadeira e iniciava seu discurso falando sobre o tempo. O implacável, o justo o inexorável tempo. Quis o destino, ou o implacável tempo, que 25 anos depois, aquele menino bobo, embora sonhador, ultrapassasse as fronteiras que separam os estados da Paraíba e do Ceará, montasse acampamento na cidade de Campina Grande e hoje estivesse aqui, diante de vocês, para assumir essa árdua, embora prazerosa missão, com o universo das letras. Patativa do Assaré dizia que o tempo é o pior de todos os ditadores, mas eu afirmo que o tempo já foi bastante cruel comigo, embora, nos últimos anos, tenha sido um bocado generoso.

Esse tempo vivido na Paraíba ainda não tem vinte anos. Até o ano de 2000, eu morava no Ceará, era professor do Programa de Educação de Jovens e Adultos (EJA) e naquele início de século, conheci uma simpática senhora que foi ministrar um curso de capacitação para esses professores do EJA. Trata-se da professora Maria Aparecida Albuquerque que, por problemas de saúde na família, não pode se fazer presente aqui hoje. Recordo-me que, no desenrolar da aula, ela pediu que todos os alunos (num total de dezoito professores), fizessem/elaborassem uma redação sobre um tema bastante comum na época (Os 500 anos do Brasil). Depois que todos cumpriram com a atividade, ela passou a corrigir os textos. Ao se separar com a minha redação, perguntou imediatamente quem era Jurani Oliveira Clementino. Ao me identificar, ela disse que havia gostado do texto que acabara de ler e me perguntou se eu já tinha feito faculdade. Surpreso, respondi que não, mas que estava terminando o Ensino Médio e, por falta de opção, ia prestar vestibular para Direito já que na Universidade Regional do Cariri, na época, só tinha os cursos de Direito, Administração e Economia. Contudo confessei para ela que o meu desejo era cursar Jornalismo. E foi então que ela me respondeu: você vai fazer Jornalismo em Campina Grande porque seu texto já é jornalístico. E ela mesma fez minha inscrição no vestibular, me recebeu em sua casa no período das provas e depois me deu abrigo por muitos anos. É uma história muito longa e muito bonita da qual tenho um indisfarçável orgulho em contar. Foi ali que começou a minha trajetória pelo mundo acadêmico e pelo universo do jornalismo propriamente dito.  Isso não acontece todo dia e não acontece com todo mundo. Isso foi no ano 2000. E no ano seguinte, aquele menino que, aos 22 anos, não sabia da existência de Campina Grande, passou a residir na Rainha da Borborema.

E esta cidade me encantou desde o primeiro momento. Desde aquele dia, eu sabia que esse era o lugar onde eu queria fazer morada. Hoje é daqui que eu produzo meus textos. É aqui onde busco inspiração para minhas histórias. Na verdade, eu tenho compreendido melhor o meu passado no Ceará estando geograficamente e socialmente distante de lá. Acho que Campina ainda vai ser melhor compreendida por mim no futuro.

De Várzea Alegre tive a sorte de ser natural e de Campina Grande obtive as oportunidades que, por “ene” fatores, o meu lugar primeiro não me ofereceu.  Quando eu cheguei por aqui, cheguei como que fugindo de mim. Tudo me surpreendia. Eu era um forasteiro igual a muitos que por aqui chegam. Um sertanejo errante e curioso. Um menino de sítio, caboclo, matuto. Cheguei aqui repleto de saudades de lá. Cheio de lembranças, de coração partido pela tristeza de uma primeira partida. Campina me acolheu. Fui recebido pelas suas ruas e pela sua gente. Fui conquistado pelo seu clima e pelas suas noites agradáveis, e aos poucos fui me sentindo em casa.

Aqui conquistei novos amigos, feitos de sonhos iguais a mim e que, parafraseando Maria Bethânia, “mantem a coragem de gostar de mim, apesar de mim”. Feito retirante, atravessei o Sertão e o Cariri para fazer morada aqui. Cheguei assustado. Vim sozinho. Desembarquei feito um tropeiro com o matulão cheio de esperanças. Chorando as dores da partida, mas de coração esperançoso. Hoje compreendo que foram os desejos migrantes que me fortaleceram e me deram coragem de seguir em frente. Não sabia o que procurava. Nem se ia encontrar.

Parece mentira, mas foi em Campina Grande que, pela primeira vez, entrei num teatro para assistir a uma peça. Com quase 25 anos. Aqui também fui apresentado ao cinema, tornei-me jornalista, escrevi meu primeiro livro… entrei na sala de aula como professor universitário, especializei-me em Comunicação e Educação, tornei-me Mestre e Doutor. Comecei a graduação com 22 anos e conclui o doutorado aos 36. Isso pode não dizer muita coisa, mas reforça uma indisfarçável importância dessa cidade em minha vida. Hoje sinto uma forte admiração pelas duas cidades com as quais me relaciono.

Nestes quase 20 anos de Campina Grande, consegui perceber também, a distância, toda a poesia que foram aqueles momentos vividos em Várzea Alegre – Ceara. Ali, naquele pedaço de chão, o meu lugar primeiro, está enterrado o meu umbigo e dali não consigo me libertar. Estou preso àquelas memórias. Serei eternamente refém desse sentimento de pertença. Várzea Alegre, em geral, e o Sítio Queixada, em particular, formam esse meu universo pueril. Foi ali que senti a primeira sensação de pertencer a um lugar. Aquele lugar que não sai de você. É você.

Quando estou em Várzea Alegre tenho saudades de Campina e vivendo aqui, estou sempre de coração apertado com saudades de lá. Sou um migrante (aqui) e um emigrado (lá). Procuro, cotidianamente, alimentar uma presença na ausência e uma ausência na presença. Nos termos do pesquisador Francês, Abdelmalek Sayad: o paradoxo da imigração. Nem de um todo completo lá, nem aqui. Alimentando na família a esperança de um retorno constantemente adiado.

Leitura e Escrita

Atribuo muitas das coisas que eu vivi, senti e fiz na vida, ao fato de gostar de ler. Comecei a ler muito cedo. Lia de tudo. Mas não me esqueço de um livrinho, infanto-juvenil, encontrado, por acaso, nos pertences de minha mãe, que na época era professora. Este livro marcou muito a minha vida. Tratava-se de “As Aventuras de Tibicura” do autor gaúcho Érico Verissimo. Tibicuera era um indiozinho personagem central dessa obra que foi publicada em 1937. Neste livro o autor narra a partir da trajetória de vida desse índio e de seus descendentes a história de uma nação, de um país, a história do Brasil. É um livro que mistura realidade e ficção, proporciona além do divertimento a possibilidade de aprender muito a respeito da nossa história. Por isso cada capítulo, cada nova aventura de Tibicuera me deixava envolvido com a narrativa genial de um autor brasileiro que eu também conhecia com a leitura daquele livro. Ao concluir a leitura se alguém me perguntasse o que eu gostaria de ser, respondia sem muito pensar: índio. Nas próximas gerações eu já sabia o que gostaria de ser. A figura do índio como herói me seduziu. Só viria a ter um novo contato com o universo mágico de Érico Verissimo, muitos anos depois, já morando aqui em Campina Grande porque descobri que a professora Cida possuía a coleção completa de “O tempo e o vento”. Devorei animalmente aqueles volumes todos. E não apenas isso, entre os autores do acervo de livros da professora Cida estavam: Guimarães Rosa, Vinicius de Morais, Darcy Ribeiro, Paulo Freire e tantos outros poetas, escritores, romancistas e pensadores modernos.

A minha iniciação na leitura foi completamente intuitiva. Ninguém me indicava autores. Eu ia encontrando os livros e lendo-os. Aqueles que me seduziam, que se aproximavam de minha realidade eu ia tomando gosto, me identificando e entrando na historia. Quando percebia estava na última página. Rachel de Queiroz foi me apresentada na escola. Na escola a gente é meio que obrigado a ler. Mas eu gostei tanto dela e através de “O Quinze”, fui percorrendo esse universo dos autores regionalistas como Graciliano Ramos, José Lins do Rego, José de Alencar, Bernardo Guimaraes dentre tantos outros.

Tomei um susto quando li pela primeira vez um texto de Clarice Lispector. Achei que não tinha entendido nada e depois achei que havia compreendido tudo e só depois compreendi que essa era a lógica de Clarice. Desde então estabeleci uma relação duradoura com o seu trabalho e com as suas obras. E os espantos causados pela literatura ainda estavam longe de acabar. Os contos de Edgar Allan Poe; “O apanhador no campo de centeio” de J. D. Salinger e “O sol é para todos” de Harper Lee me proporcionariam momentos de completa desestabilização. Tomaria muito tempo de vocês, senhoras e senhores, elencando aqui os autores que me influenciaram e me inspiraram de certa forma.  Mas é comum que um leitor voraz também seja um aspirante a escritor. Porque ao ler sentimos vontade de escrever. E talvez, por isso, eu escreva.

Vez ou outra, as pessoas me perguntam como é o meu processo de produção textual, como eu elaboro as minhas crônicas. Acho que é somente nessas horas que reflito sobre a minha prática porque não sei explicar direito como se faz isso. Acaba sendo natural. A gente vai incorporando o papel de escritor e escrever torna-se banal. Minha escrita é uma prática de liberdade, e isso me realiza. Não escrevo sobre aquilo que não sei, que não vi, que não vivi. Prefiro aquilo que acho que conheço. Parto do princípio de que você só sabe falar sobre as coisas com as quais você tem proximidade. Então eu escrevo sobre experiências vividas, sobre afetos, sobre sentimentos. Construo uma prosa bem ao estilo Canção do Exílio, marcada quase sempre por uma poesia de dor e saudade. As pessoas que servem de inspiração para os meus textos são figuras comuns com as quais tive a sorte de cruzar o caminho e pelas quais guardo imenso carinho e respeito. Não enfeito meus textos porque acho a minha imaginação demasiadamente limitada.

Minhas inspirações vêm de todos os lados: ao ouvir uma música, ver uma fotografia, conversar com um amigo, assistir à um filme, observar as pessoas nas ruas, ver um pássaro voando… Tudo isso serve de matéria prima para as minhas crônicas. Meu texto nunca é feito pela metade. Sempre sai numa tacada só. Às vezes, muito raramente, eu mexo, corto palavras, reconstruo frases e, mesmo quando faço isso, a ideia original permanece. Algumas histórias parecem adormecidas em mim e demoram a acordar. E eu preciso estar sempre de sobreaviso porque, quando a inspiração chega, tenho que dar atenção a ela esteja onde estiver, seja a hora que for, Ou ela não me deixa em paz. É o que a gente chama de insights. Eles são traiçoeiros e passageiros: depois que vão embora, a gente não consegue mais recuperá-los.

  Os livros publicados

Até hoje publiquei três livros. O primeiro deles foi bem acidental. Trata-se da biografia do compositor cearense, um primo distante, chamado Zé Clementino. No fundo foi também uma questão de justiça. Embora ele seja muito importante na obra de Luiz Gonzaga, Zé ainda é pouco citado em trabalhos que contam a história do Rei do Baião. Não havia um trabalho de fôlego sobre ele. Então eu achei que deveria fazer isso. Aproveitei o ano de 2012, centenário de nascimento de Gonzaga, e propus a editora da UEPB, na pessoal do professor Cidoval Morais, na época ela era diretor da referida editora e propus que produzirmos a biografia de um compositor autor de grandes sucessos interpretados pelo Rei do Baião. Professor Cidoval, reconhecendo a importância do autor de “Xote dos Cabeludos”, “Capim Novo”, “Sou do Banco”, “O Jumento é Nosso irmão”…. entre outros, “comprou” a ideia de  publicação daquela história. Escrevi essa biografia num tempo muito curto, coisa de quatro meses, estávamos em 2012 e queríamos aproveitar as festividades do centenário de Luiz Gonzaga, mas o livro só ficou pronto na editora em 2013 e para minha grata surpresa, ganhou uma repercussão muito grande. Fãs, colecionadores, pesquisadores da obra de Gonzaga logo tomaram conhecimento do livro e passaram a adquiri-lo. Em 2014 recebi um prêmio em Caruaru – PE por conta do livro. Descobri que Zé Clementino era muito querido por todos aqueles que se interessavam pelo trabalho musical de Luiz Gonzaga. Na edição do dia 30 de novembro de 2013 o Jornal o estado de Minas publicou um comentário muito carinhoso sobre essa biografia escrita por mim.  “Zé Clementino: o ‘matuto’ que devolveu o trono ao Rei é um livro indicado não só para pesquisadores da música brasileira, mas para aqueles que desejam conhecer mais sobre a vida e obra do autor de versos que até hoje habitam a memória do povo nordestino”.

Em 2018, depois de vencer um Concurso Nacional de Crônicas, promovido pela Livraria Cultura, o que me rendeu uma viagem à cidade de Nova Iorque, nos Estados Unidos, achei que deveria reunir algumas de minhas crônicas e lançar no formato de livro. Foi assim que nasceu o “Forró no sítio”, eu costumo dizer que esse livro de crônica é uma homenagem a minha cidade Várzea Alegre, por que nele seleciono aquelas histórias que conduzem o leitor ao cotidiano daquela cidade, ao dia a dia do povo simples, sua sociabilidade, seus dilemas, suas crenças, tradições…

Há pouco mais de um ano, o meu segundo livro recebia uma resenha que muito me orgulhou. Dizia o resenhista: “O livro ‘Forro no Sítio’ está cheio de sabedoria popular, fruto da carga adquirida ao longo dos anos por Jurani O. Clementino. Mostra um olhar aguçado para as pequenas coisas que a vida lhe proporciona e também uma capacidade ímpar de tirar ensinamentos desses momentos particulares. Uma leitura prazerosa e difícil de largar que tem todo o potencial de agradar leitores de todas as idades: os antigos pela carga nostálgica e os mais jovens pelas informações que devem ser perpetuadas”.

Hoje estou lançando aqui, o mais novo trabalho de minha autoria, chamado “Memórias Sertanejas: tardes, calçadas, redes e alpendres”. Uma coleção de 84 crônicas com experiências que sentidas e vividas em espaços urbanos e rurais. A maioria deles no sertão. Um sertão que vive dentro da gente. Que a gente leva para onde a gente vai.  O meu sertão é um sertão de memórias e histórias, mas sem deixar de ser um sertão de denúncia contra a opressão, contra a omissão, contra os abusos de poder… não é um sertão de fantasias. Eu trato de questões reais, de pessoas de carne e osso, de sentimentos, alegrias e tristezas. E fico feliz quando as pessoas chegam para mim e dizem que se identificam muito com o que escrevo. Eu sou a voz de muita gente. Pessoas simples que gostariam de falar algo e muitas vezes não sabem como dizer. Para mim isso é resistir. Quero dar voz aos silenciados. Aos vencidos.

   Agradecimentos

Senhoras e senhoras, autoridades, amigos para finalizar gostaria de agradecer todos os ensinamentos transmitidos pelos meus pais, pela existência dos queridos professores. Tenho o dever de agradecer ao sertão e a essa longa espera que é viver ali. Agradeço todas as lágrimas derramadas pelos meus pais, Dona Fátima e Seu Aldo que hoje não se fazem presentes aqui, mas certamente estão pedindo a Deus a minha proteção e imensamente felizes por esse momento de alegria, reconhecimento e celebração. Sempre devo ser grato àquela bênção que durante anos meu pai, não conseguiu me dá no exato momento da partida porque, uma mistura de tristeza e angustia, lhes fazia perder as forças e roubavam-lhes as palavras. Jamais esquecerei do seu choro contido, de suas orações em silêncio, da sua doce e meiga existência. Gratidão ainda aos meus irmãos, sobrinhos, tios, afilhados meu sobrinhos postiços, esses queridos alunos que me chamam carinhosamente de “tijura”, meus colegas de trabalho, minha família Araújo que continua me acolhendo tão bem aqui da Paraíba, as autoridades que vieram me prestigiar nesse dia tão especial.

Agradeço a poeira da estrada, a luz da lua, os forrós e as cantorias de pé de parede. Sou grato aos pássaros, aos poetas, repentistas, trovadores, as rezadeiras, as parteiras, os vaqueiros, os agricultores. Agradecimento mais que especial a professora Cida Albuquerque pela oportunidade que me fez chegar até aqui. Ao portal de notícias Paraíba Online, do amigo e confrade Arimatéa Souza que, há dez anos, cede espaço para a publicação digital dos meus textos; a Rádio Cultura de Várzea Alegre que, semanalmente, divulga uma crônica em formato de áudio para os seus ouvintes e me aproxima da minha terra natal. Fica aqui também, a minha gratidão a administração daquele município, representada aqui na pessoa do Prefeito Zé Helder. Obrigado por compartilhar comigo momento de celebração, alegria e reconhecimento. Para finalizar, faço mais uma referencia a esse que me parece a solução para tudo: o tempo, o inexorável tempo. Dessa vez recorro a música de Caetano Veloso: ”Oração ao tempo”, que obviamente prefiro interpretada na voz inconfundível de sua irmã Maria Betânia Veloso.

“Por seres tão inventivo

E pareceres contínuo

Tempo, Tempo, Tempo, Tempo

És um dos deuses mais lindos

Tempo, Tempo, Tempo, Tempo”

Como é bom ter o quê e a quem agradecer, louvar e abraçar. O meu muito, muito, muito obrigado.

* Trechos do discurso de posse do novel acadêmico JURANI OLIVEIRA CLEMENTINO na Academia de Letra de Campina Grande, cadeira de número 29, tendo como patrono o dramaturgo Lino Fernandes de Azevedo e seu último ocupante o jornalista, professor e teatrólogo HERMANO JOSÉ BEZERRA DE LIMA.

Campina Grande – 22 de novembro de 2019

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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