Fechar

logo

Fechar

Jurani Clementino: Diário da quarentena no sítio

Jurani Clementino. Publicado em 17 de julho de 2020 às 11:59

Paraíba Online • Jurani Clementino: Diário da quarentena no sítio

Manhã

“Meu filho, vou varrer essas folhas do terreiro antes que o vento mais forte chegue”, diz minha mãe. Essa frase me fez lembrar um conto de Edgar Allan Poe “The Devil in the Belfry” (O diabo no Campanário)

Todo dia tenho que acordar cedo para tirar leite das vacas no curral. Todo dia cinco e meia estou de pé. Mas Todo dia perco a hora.

Resumindo – O sertanejo não dá moleza ao tempo.

Ontem o dia amanheceu gelado. Dizem que é clima de deserto. Dias quentes e madrugadas frias. Um vento cortante. Hoje nem tanto.

Café com bolo de milho – Café com tapioca feita com goma e amendoim.

No curral das ovelhas é vida que brota. Nasceu um filhote. O recém-nascido mal consegue ficar de pé. As outras ovelhas seguem obedientemente pela estrada sinuosa e param diante da porteira da roça. Abro passagem. 

Deve ser o ataque de alguns morcegos famintos que, durante a noite, cravam os dentes no pescoço desse pobre bezerro magro. Tá surrado, o bixim!

No curral das vacas leiteiras, um bezerro amanheceu “amorrinhado”, triste e sem querer mamar. Injeções de terramicina. Horas depois já estava feliz da vida.

Joguei o laço, acertei de primeira, mas ninguém filmou. Sem provas acho que não vão acreditar. É preciso aplicar vacina nos bezerros para combater os carrapatos. Mudar os animais de uma roça pra outra.

Apanhar fava verde exige olhar atento. As vagens ficam escondidas por baixo das folhas e ramas… é preciso malandragem.

Na roça homens se revezam para colher 40 “arrôbas” de algodão branco (herbáceo). Praticamente uma tonelada do produto.

Depois de muitos anos voltei a catar algodão.. fui ajudar os meninos. Onze horas da manhã e não tinha quengo que aguentasse o calor do sol. Viemos embora. E o algodão ficou lá. Um amontoado no meio da roça.

Mais um dia de colheita. Dessa vez o urucum tá no ponto. Depois passo a descascar “um cozido” de feijão verde que meu irmão trouxe de agrado. 

Nove e meia: Reunião Departamental do Curso de Jornalismo da UEPB. Assisto do alpendre que fica a 500 km de distância. Novos tempos. Novos hábitos.

Na roça da chapada da Unha de Gato vi uma ave chamada sariema. Nem lembrava mais como elas eram. Parecem uns perus. Grandes e desengonçados. Meio dia escutei, do alpendre de casa, quando um pássaro de nome acauã começou a cantar. Um lamento agourento e assustador. Minha mãe dizia para nos benzer. Meu irmão disse: tomara que ela não escute. Reza a lenda que quando essa ave canta é porque alguém conhecido morre. Cruz, credo!

No almoço; cuscuz com fígado de porco. Galinha de capoeira cozida, no fogão a lenha, com arroz branco e feijão a parte.

Enquanto isso, durante todo o dia, um casal de rolinha do tipo “fogo apagou” (rolinha cascavel) se reveza para chocar os ovos do ninho construído num galho de um pé de laranjeira no fim do terreiro.

Tarde

As duas da tarde, um galo nanico, metido a valentão, abre o berreiro debaixo do pé de laranja. Depois, encara outro galo, este último de raça, no meio do terreiro. Meia hora de briga.

Duas e meia da tarde (sol escaldante) e fomos a uma pescaria. Filhotes de tilápias. Pequenos e espertos. Difíceis de fisgar no anzol. O ruim de pescar é tratar os peixes. Ninguém quer fazer esse serviço. Só sobra pra o pescador mesmo. Leiam o texto “Casamento” da Adélia Prado.

O senhor com quase 80 anos que testou positivo para o coronavírus (mas não acredita na doença), atravessa o terreiro, passa pela cancela e segue por dentro da roça.

Montado numa bicicleta um menino percorre o terreiro tangendo uma dezena de ovelhas.  Uma visita desavisada chega de moto. No rosto uma máscara surrada. Demora pouco. Segue..

No oitão da casa rural, alguns jovens improvisam um jogo de vôlei.

Um moleque danado passa amontado numa “biróba” gorda. Atrás deles um filhote do animal que segue a mãe.

Lanche da tarde: café com pão de arroz. Café com pão de ló de seu Raimundo dos bolos

Meio da tarde: preparar as espigas de milho verde para fazer canjica.

Sair da cozinha um pouco porque minha mãe acabara de torrar um café e não tem quem aguente o cheiro. 

No final da tarde, uma vaca com um bezerro cego (heranças de meu avô) são embarcados na carroceria de um caminhão.

Na janta: baião de dois com fava, “toissim” torrado e ovo “estralado”.

Noite 

A noite cai e três sobrinhas (duas delas minhas afilhadas) disputam uma bicicleta. Quem não estava andando, estava chorando!

Pelas redes sociais, a notícia de novas suspeitas de coronavírus pelo sítio! 

Na casa vizinha uma caixa de som, conectada a um aparelho celular, toca musicas de Amado Batista;

Uma rede no alpendre, uma conexão Wi-Fi, crianças deitadas no chão entretidas com joguinhos e desenhos no celular.

Sentadas nas cadeiras, debaixo do alpendre, as pessoas conversam sobre a Covid-19.

No meio da noite me dou conta de que regularam o volume dos galos tão pra cima que acordei várias vezes com eles tecendo o seu canto bem ao estilo João Cabral de Melo Neto.

Barulho também dos cachorros. Entre meia noite e duas da manhã latiram inspirados.

Quando os negacionistas, fundamentalistas, terraplanistas deixarem o poder, me avisem. Obrigado! Passou a noite minuano. Prefiro os rompantes do Aracati

Jurani Clementino

Várzea Alegre – Ceará, sexta-feira, 17 de julho de 2020

Share this page to Telegram

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Mais colunas de Jurani Clementino
Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

[email protected]

Arquivo da Coluna

Arquivo 2018 Arquivo 2017 Arquivo 2016 Arquivo 2015

2018 - Paraiba Online - Todos os direitos reservados.

BeeCube