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Jurani Clementino: Diadorim, meu amor!

Jurani Clementino. Publicado em 19 de junho de 2020 às 11:07

Grande sertão: veredas é um importante romance da literatura brasileira, publicado originalmente em 1956, pelo escritor mineiro João Guimarães Rosa. Trata-se de uma narrativa em primeira pessoa contada através de memórias vividas pelo jagunço Riobaldo. Além das aventuras e longas viagens pelos sertões de Minas, Goiás e Bahia o livro destaca tem como foco o conflito de seu protagonista que vive um dilema existencial ao se sentir atraído emocionalmente e apaixonadamente por um amigo do bando chamado Reinaldo ou Diadorim. Somente no final e, com a morte em combate do amigo, jagunço é que Riobaldo descobre que, na verdade, Diadorim era uma mulher disfarçada de homem e infiltrada entre a jagunçada. Destaquei alguns pontos memoráveis da narrativa de Guimarães Rosa para falar desse amor improvável.

Primeiro, fiquei sabendo que gostava de Diadorim – de amor mesmo amor, mal encoberto em amizade. Foi de repente, que aquilo se esclareceu: falei comigo. Não tive assombro, não achei ruim, não me reprovei – na hora. O nome de Diadorim, que eu tinha falado, permaneceu em mim. Me abracei com ele. Mel se sente é todo lambente – “Diadorim, meu amor…” Como era que eu podia dizer aquilo? Coração cresce de todo lado. Coração vige feito riacho colominhando por entre serras e varjas, matas e campinas. Coração mistura amores. Tudo cabe. E eu – como é que posso explicar ao senhor o poder de amor que eu criei? Diadorim tomou conta de mim. E de repente eu estava gostando dele, num descomum, gostando ainda mais do que antes, com meu coração nos pés; e dele o tempo todo eu tinha gostado. Amor que amei – daí então acreditei. Um Diadorim só para mim. Tudo tem seus mistérios. Eu não sabia. Mas, com minha mente, eu abraçava com meu corpo aquele Diadorim- que não era de verdade. Não era?[…] Diadorim deixou de ser nome, virou sentimento meu […]. Aquilo me transformava, me fazia crescer dum modo, que doía e prazia. Aquela hora, eu pudesse morrer, não me importava. Diz-que-direi ao senhor o que nem tanto é sabido: sempre que se começa a ter amor a alguém, o amor pega e cresce é porque, de certo jeito, a gente quer que isso seja, e vai, na ideia, querendo e ajudando; mas, quando é destino dado, maior que o miúdo, a gente ama inteiriço fatal, carecendo de querer. Amor desse, cresce primeiro; brota é depois. Esperei o que vinha dele. De um aceso, de mim eu sabia: o que compunha minha opinião era que eu, às loucas, gostasse de Diadorim, […] no fim de tanta exaltação, meu amor inchou, de empapar todas as folhagens, e eu ambicionando de pegar em Diadorim, carregar Diadorim nos meus braços, beijar, as muitas demais vezes, sempre. Abracei Diadorim, como as asas de todos os pássaros. Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura. Amor é a gente querendo achar o que é da gente.

Os trechos acima também compõem um capítulo do livro “Caderno de Poesia” e foram magistralmente interpretados pela cantora Maria Bethânia, em março de 2009, para o CD/DVD de mesmo nome.

Jurani Clementino – Campina Grande – PB 13 de Junho de 2020.

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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