Jurani Clementino: Dia V de Vacina

Jurani Clementino. Publicado em 11 de junho de 2021 às 11:40

Ontem eu acordei muito cedo. Quatro e meia da manhã e eu já tinha despertado. Parecia que estava no Sítio Queixada e ia pegar o caminhão de Bernardo nas Lagoas para ir até a cidade. Mas essa ansiedade toda tinha um motivo simples para esses tempos complexos. Eu havia agendado, no dia anterior, a minha primeira dose da vacina contra a COVID-19 no grupo prioritário dos trabalhadores da educação com trinta e cinco anos ou mais. Era dia de vacinação. Minha mãe costuma dizer que meu avô, o pai dela, sempre foi muito preocupado com a imunização dos netos. Quando ele sabia que alguma vacina havia chegado lá no posto de saúde de Várzea Alegre ele dizia: Fátima, junta os meninos e vamos levar pra vacinar na rua. E assim fazia. Às vezes nem dava tempo banhar a gente ou colocar uma roupa limpa. Íamos do jeito que estávamos.

Meu avô era um homem analfabeto, nascido e criado na roça, mas que acreditava na ciência. Ontem me lembrei dele. Agora eu estava na cidade e nem precisei ir muito longe porque o local de vacinação era aqui do lado de casa. Também não precisava ter acordado tão cedo porque a imunização só começava depois das nove da manhã. Mesmo assim não tem como evitar a emoção desse momento. Nem tão pouco descrever. Muitos que me escutam agora já passaram por ele. Muitos ainda esperam.

Confesso que esperei ansiosamente por isso. Foram quase quinhentos dias de uma longa e praticamente interminável espera. Dezenas de semanas em que o medo, a ansiedade, a angústia e as incertezas prevaleceram em mim e certamente em muitos de nós. Período em que pensava comigo: Será que chegarei lá? Sobreviverei a tudo isso!? Serei vítima desse vírus!? E se eu morrer, como será isso? Não terei tempo para despedidas. Nem ao menos pedirei uma benção derradeira, um último abraço… um velório simples, frequentado por aquelas pessoas que amo e me admiram, enfeitado com flores colhidas no jardim…

Pensar nisso, por vezes, me deixou triste, angustiado, meio depressivo. Nos primeiros meses de pandemia vivemos momentos bem difíceis. Medo de tudo e de todos. Um dia estava tão desesperado que fui pra debaixo do chuveiro e desabei no choro. Não sabia ao certo porque chorava. Mas era um nó na garganta. Um aperto no peito. Uma sensação de impotência. Como se a nossa existência significasse quase nada. Como se tudo pelo que lutamos e tudo pelo que sonhamos perdessem o significado de um dia para outro. Nenhuma fagulha de esperança no horizonte. Nenhuma luz no fim do túnel.

A ideia de escrever uma espécie de diário foi uma maneira indireta de conversar com as pessoas, mesmo que distante. Compartilhar essas angústias. Sentir que não estava só. Tentar me distrair enquanto esperava, esperava, esperava. Mas naquele início a gente nem sabia ao certo o que esperar. Era um tipo de espera meio sem sentido. Aos poucos fomos entendendo que esperar era sinônimo de sobreviver. Até quando? Quatrocentos e quarenta e oito dias depois, quase meio milhão de mortos por esse vírus, eis que surge a boa notícia pra mim. Poderia tomar a primeira dose da vacina. É um punhado de esperança em meio às incertezas, um feixe de luz entrando pela frecha do telhado e refletindo no chão escuro. O primeiro passo para um novo momento.

Desejo que todos tenham a mesma sensação que eu. Queremos vacina para todos. Precisamos viver. Precisamos sobreviver a tudo isso. Necessitamos contar essa história no futuro. Metade de mim está feliz porque tive acesso ao imunizante, a outra metade está entristecida por tantas pessoas que não tiveram tempo. Lamento pelos milhares que não puderam escrever esse texto. Ou apenas sentir isso que estou sentindo. Porque sei que mesmo muitos de vocês, já vacinados, mesmo não traduzindo os sentimentos em textos, em vídeos, em áudios ou em qualquer código que seja, vocês vivenciaram isso. E particularmente é mágico. Que Deus continue nos abençoando e nos protegendo de todo o mal. E que a gente permaneça vigilante. Precisamos acreditar numa força maior. Precisamos valorizar a ciência. O Sistema Único da Saúde e todos os seus profissionais.

Jurani Clementino

Campina Grande – PB
10 de junho de 2021

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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