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Jurani Clementino: Completamente chapado

Jurani Clementino. Publicado em 1 de setembro de 2020 às 10:52

Paraíba Online • Jurani Clementino: Completamente chapado

Esses dias, um primo meu chamado Herik Leandro, que mora em São Paulo, me enviou uma mensagem, via celular, perguntando se eu me lembrava do dia em que me embriaguei com uma piola de cigarro. Na verdade, na época em que esse fato aconteceu, o Herik nem era nascido e só me fez essa pergunta porque a mãe dele, uma tia muito querida de nome Leni, estava relembrado essas histórias do passado. Eu era muito jovem (um moleque ainda), não sei precisar o ano nem a idade que eu tinha, mas o fato é que experimentar aquele resto do cigarro do tipo “pé de burro” alterou completamente o meu estado físico, mental e espiritual. Na linguagem popular dos usuários de substâncias tóxicas e ou alucinógenas, eu fiquei absolutamente chapado.

Naquela época não havia abastecimento d’água nas comunidades rurais e era muito comum as mulheres se reunirem ao redor dos cacimbões, principalmente aos sábados, para lavar roupa. Levavam trouxas e mais trouxas de roupas sujas e se espalhavam sentadas nas pedras ensaboando, esfregando, botando para quarar ao sol e finalmente enxaguando os panos. Muitas delas fumavam cachimbos, cigarros feitos na palha de milho ou enrolados em papéis finos. Eram cigarros fortes. Feitos com fumo de rolo, os famosos pés de burro. A gente, ainda muito criança, acompanhava nossas mães ou irmãs mais velhas para auxiliar nesse tipo de trabalho. Fornecíamos água para o serviço das mulheres. Com latas de cinco litros de querosene vazias, transformadas em baldes e amarradas em cordas de nylon ou sisal, a gente tirava a água do cacimbão e colocava nas tinas e bacias das lavadeiras. Quando os panos estavam sendo ensaboados ou quarando ao sol, o consumo de água era pequeno e a gente tinha um descanso, mas quando as mulheres começavam a enxaguar a roupa, a água não dava pra nada e a gente sofria para repor.

Bem, acontece que sempre no final do dia, após essas lavagens de roupa, muitas piolas de cigarro ficavam espalhadas por ali. De todo tipo: uns mais finos, outros grossos, cada um mais forte que o outro. Acredito que a mistura da nicotina com a saliva e o passar do tempo potencializavam as consequências do tabaco e transformavam aqueles cigarros em verdadeiras substâncias alucinógenas. Certo dia, eu fui com minha avó e minha tia Leni a um desses cacimbões. Lá encontrei uma piola de cigarro e não sei porque inventei de acender e colocar na boca. Foi uma coisa de outro mundo. As consequências foram imediatas. Parecia que a nicotina tinha sido injetada direto na veia. Na mesma hora o mundo começou a girar ao meu redor, na minha vista, as árvores e capins que existiam ali próximos, ficaram completamente borrados, minhas pernas perderam forças, era uma moleza tão grande no corpo que não conseguia ficar de pé.

Minha tia e minha avó ficaram desesperadas. Disseram que eu mudava de cor, oscilando entre o amarelo e o branco. Não havia muito que fazer. Imediatamente, as duas tiveram a brilhante ideia de me sentarem numa daquelas pedras das lavadeiras de roupa, puxaram água do cacimbão e me deram um banho. Eu tinha virado um pano sujo e elas estavam me lavando. Uma ânsia de vômito tomou conta de mim. Não me recordo se vomitei, mas foi uma experiência tão angustiante e desesperadora que por décadas tomei abuso de cigarro. Ainda hoje não sei a quem pertencia aquela piola. A minha suspeita é que tenha sido deixada pela parteira da comunidade, dona Antônia Leandro que a gente chamava carinhosamente de “Madrinha Antônia” e que durante muitos anos fumou uns “saborosos” e devastadores “pés de burro”.

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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