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Jurani Clementino: Clarice Lispector – 100 anos

Jurani Clementino. Publicado em 10 de dezembro de 2020 às 11:33

Essa semana comemorou-se o centenário de nascimento de uma importante escritora brasileira: Clarice Lispector. É bem verdade que com esse sobrenome, (estranho, um pseudônimo!?), ela tenha origem em outro país, (Clarice era ucraniana), mas chegou ainda bebê, foi naturalizada brasileira, escreveu quase todas as suas obras por aqui. Passou parte da infância em Maceió e depois mudou-se com a família para o Recife. Seu primeiro livro publicado, aos 24 anos, foi “Perto do Coração Selvagem”. Morreu aos 56 anos, no dia 09 de dezembro de 1977. No dia seguinte, 10 de dezembro, ela completaria 57 anos de idade.

O primeiro livro que li de Clarice, chama-se “Uma aprendizagem ou o Livro dos prazeres”, confesso que não entendi muita coisa. E olha que de seus livros é disparadamente o mais simples/didático. Na verdade, só li porque era obrigatório para o vestibular da UEPB naquele distante ano de 2000. Mas somente muito tempo depois foi que percebi que o livro começa com uma vírgula e termina com dois pontos. Porque Clarice era genialmente provocadora, enigmática, sedutora. Caí nas graças dela. Não ter entendido seus textos de cara, foi uma coisa interessante. Eu precisava sentir Clarice, entrar no jogo dela, me permitir… Depois tudo foi se esclarecendo. E de repente sua obra estava tão clara para mim, que parecia o céu do sertão em tempos de seca. Certo dia, dei de presente esse livro (o dos prazeres) para um aluno que também desconhecia Clarice. Uma semana depois ele me mandou uma mensagem por e-mail, me dizendo que “estava pirado”. Clarice tinha dado um nó no juízo dele.

A autora parecia solidária com os novos escritores. Dos autores já consagrados da literatura brasileira que não boicotaram (sim essa é a palavra, esse mundo também é um mundinho) o lançamento do livro “Quarto de despejo”, da Carolina de Jesus, Clarice foi um deles. Ela estava lá. Linda, elegante, como sempre. Dizem até que Carolina chamou a sua filha, Vera, e disse: “Veja minha filha, esta é uma escritora de verdade”. Clarice, terrivelmente polida, teria respondido: “Olha, Carolina, eu posso até ser uma grande escritora, mas a escritora de verdade aqui é você. Porque você fala de coisas reais”.

Mas o biógrafo americano de Clarice, Benjamin Moser, deve ter esquecido ou feito pouco caso desse encontro entre as duas. Olha só o que ele escreveu na página 25 de “Clarice, uma biografia”: “Numa foto, ela aparece em pé, ao lado de Carolina Maria de Jesus, negra que escreveu um angustiante livro de memórias da pobreza brasileira, Quarto de despejo, uma das revelações literárias de 1960. Ao lado da proverbialmente linda Clarice, com a roupa sob medida e os grandes óculos escuros que a faziam parecer uma estrela de cinema, Carolina parece tensa e fora do lugar, como se alguém tivesse arrastado a empregada doméstica de Clarice para dentro do quadro”.

A frase foi uma infeliz tentativa do autor em dizer que, embora Clarice fosse aquela elegância de mulher, (estrela de cinema), teria tido uma infância tão triste e miserável quanto a Carolina Jesus. (Além de exagerado, Moser foi preconceituoso. Em 2016, por conta da polêmica a esse trecho do livro, ele se retratou). Clarice é a autora brasileira mais traduzida no mundo. Essa semana ela completaria 100 anos, mas coincidentemente, essa semana completou 43 anos de sua morte.

Em fevereiro de 2017 eu estava em Recife e me deslocava para o local do desfile do bloco de carnaval “O Galo da Madrugada”. Tinha ido a capital pernambucana na companhia de uns amigos e me hospedado em um hotel localizado no tradicional bairro de Boa Vista. No meio do caminho, quando atravessávamos uma praça, até então desconhecida para mim, avistei a imagem de Clarice, sentada, com a sua inseparável máquina de escrever sobre as penas. Claro que me aproximei para fazer uma foto e tentei, sem sucesso, encontrar o sobrado onde Clarice viveu parte da infância e adolescência. Lembrei-me da crônica “Felicidade Clandestina”, da menina Clarice correndo pelas ruas do Recife com seus cabelos ao vento, atravessando as pontes, escrevendo seus primeiros textos, levando os manuscritos para o Jornal do Commércio, ouvindo do editor: “De onde você copiou isso, menina?” E respondendo: “De canto nenhum. Fui eu que fiz”. Enfim… fui tomado por memórias clariceanas.

Anos antes eu tinha sentido algo parecido. Estava residindo, temporariamente, no charmoso bairro de Copacabana, no Rio de Janeiro, e me lembrei que Clarice tinha morado ali, ao lado, no vizinho bairro do Leme. O Leme é, praticamente, uma extensão de Copacabana. Algumas tardes eu saía caminhando pelo calçadão da Avenida Atlântica, passava em frente ao Copacabana Palace e parava numa pracinha que tem no final da orla, próximo ao morro do Leme. Eu sentava ali e ficava pensando em Clarice. Em qual daqueles prédios ela tinha morado? Teria a autora frequentado aquela agradável pracinha onde eu estava sentado? Durante os doze anos que vivera ali, ela teria escrito alguma coisa? (Pergunta boba!). Eu estive lá em 2010. Seis anos depois inauguraram uma estátua de Clarice sentada, exatamente, num banquinho próximo a praça que eu frequentava. Ela e seu cachorro de nome Ulisses.

Jurani Clementino – Campina grande – 10 de dez 2020

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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