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Jurani Clementino: Chica do Rato: a princesa do Reino de Clarianã

Jurani Clementino. Publicado em 15 de agosto de 2020 às 9:26

No final dos anos de 1950 o presidente da república Juscelino Kubistchek prometia uma revolução no país. Entre as suas promessas estava a construção de uma nova capital federal, Brasília, que era erguida, às pressas e no meio do nada. A autoridade maior do país enfrentava duras críticas e era importunado pela oposição. Como se tudo isso não bastasse, dezenas de cartas eram escritas e, sabe se lá, enviadas do Beco de Seu Dirceu, em Várzea Alegre, para o Rio de Janeiro, que na época era a capital federal.

O motivo daquelas correspondências era, no mínimo, estranho: cobrar ao então Presidente da república vultosas dívidas para com um reino imaginário de nome “Clarianã”. O suposto proprietário desse reino se chamava Abel e sua esposa, Maria de Abel, era quem elaborava as correspondências enviadas ao presidente.

Abel afirmava que naquele reino havia uma pedra capaz de operar milagres. Ouvindo assim, até parece que estamos nos referindo ao romance “A Pedra do Reino”, do paraibano Ariano Suassuna. Mas esta história aconteceu em Várzea Alegre e seus protagonistas eram loucos varridos.

Nem sei se posso chama-los assim. As vezes a fome, a pobreza e a miséria fazem com que as pessoas imaginem coisas que elas não tem e muito dificilmente terão acesso. Para quem não sabe, Abel e Maria eram os pais de “Chica do Rato”, uma conhecida personagem folclórica da historia de Várzea Alegre.

Juscelino nunca deve ter recebido tais correspondências e se tais cartas chegaram até ele, certamente não deu a menor atenção. A pobre Maria de Abel nem conheceu a nova capital federal erguida pelo presidente. Certo dia ela foi encontrada morta, sozinha dentro de casa, acompanhada apenas pela fantasia de seus pensamentos.

Dos três filhos que o casal Maria e Abel deixou, Chica tornou-se a mais conhecida e também pelas suas loucuras. Vivia perambulando pelas ruas. Era sempre perseguida por crianças que se divertiam gritando “Chica do Rato, Chica do Rato”. Mas Chica não gostava desse apelido e respondia com uma infinidade de palavrões.

Magricela, tinha pernas e braços finos. Gostava de roupas coloridas e brilhosas. Nos braços uma infinidade de pulseiras. Nas orelhas alguns penduricalhos. Talvez ela mesma se sentisse uma princesa imaginária do reino supostamente pertencente ao seu pai.

A princesa do Reino de Clarianã. Mas como é de se imaginar, Chica não tinha absolutamente nada. Vivia de favores e da caridade alheia. Embora fosse conhecida como louca, as pessoas gostavam dela. Era uma doida do bem. As crianças eram quem lhes tiravam o juízo. Mas no geral, praticamente todo mundo, abria suas casas pra Chica, ou Chichica.

Almoçava numa casa, jantava em outra, ganhava roupas e sapatos usados. Os colares, pulseiras e brincos que enfeitavam seu corpo, também eram resultado dessa bondade alheia. E assim foi a vida de “Chica do Rato”. Tão cheia de fantasias quanto o reino imaginado que pertencia ao seu pai. O Reino de Clarianã.

 

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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