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Jurani Clementino: Cavalhadas

Jurani Clementino. Publicado em 17 de outubro de 2020 às 9:48

O mês de outubro sempre foi marcado pelas competições de cavalhadas nos sítios localizados nas zonas rurais de Várzea Alegre. Desafios entre equipes que eram finalizados com uma grande disputa municipal que ocorria ali ao lado do Centro Social Urbano – O CSU. As cavalhadas consistem num esporte em que cavaleiros tentam acertar, com uma espécie de flecha de madeira, uma pequena argola pendurada num fio de arame. Adaptada para a realidade do sertão cearense, a cavalhada é uma celebração de origem portuguesa que começou com os torneios medievais, onde os aristocratas exibiam em espetáculos públicos a sua destreza e valentia.

Para participar dessas competições os interessados precisam de um bom cavalo, habilidade para montar o animal e ótima pontaria para não errar o alvo, ou seja, uma argola com aproximadamente 10 centímetro de diâmetro. As disputas acontecem numa espécie de arena, onde duas traves de madeira são enfiadas no chão, nelas se coloca um arame esticado de um lado ao outro e no meio prendem as argolas. O cavaleiro competidor parte em disparada por uma extensão de aproximadamente 100 metros, flecha a argola e evita cruzar a faixa limite da pista com o seu animal, para não ser desclassificado. Há registros desse tipo de esporte em vários municípios cearenses.

Meu irmão mais velho, de nome Rivail, sempre foi muito bom nesse esporte. Ele, juntamente com sua equipe, venceu várias cavalhadas pelos sítios de Várzea Alegre e sempre se destacava nas competições municipais. Num desses torneios realizados por volta de 1997, ao lado do CSU, o cavalo montado por Rivail tropeçou e caiu. Claro que o cavaleiro também foi ao chão. Era início da competição, numa das primeiras carreiras. Com o acidente, meu irmão sofreu varias raladuras nos braços, pernas… Os amigos que participavam de uma equipe concorrente queriam, a todo custo, leva-lo ao hospital. Ele resistiu porque achou que, para além da bondade daqueles colegas, eles queriam que meu irmão ficasse internado e dessa forma saísse da disputa. Mesmo com raladuras pelo corpo, Rivail seguiu competindo e, como era de costume, tirou as catorze argolas.

No sitio Juazeirinho aconteciam os chamados bolões onde duplas de cavaleiros disputavam quem era a melhor. Meu irmão competia formando dupla com o primo Bonieck. Certo dia, numa dessas competições realizadas ali próximo à bodega de Zé Gregório, os competidores Zé Maurício e Valdenir de Zé Velho desafiaram meu irmão dizendo que Rivail só tirava todas as argolas porque o cavalo dele corria pouco. Coincidentemente, nesse mesma cavalhada, estava o filho de Juciê Cunha com um dos melhores cavalos da região. Um animal grande, forte, rápido e esperto. Para por em xeque a fama de cavaleiro bom, fizeram outro bolão, sete carreiras, sete argolas. Dessa vez Rivail teria que montar o estranho cavalo indicado por eles. E para a decepção daqueles que achavam que havia um acordo entre Rivail e seu cavalo, meu irmão montou num animal completamente desconhecido e com fama de veloz, deu as sete carreiras, tirou as sete argolas e venceu o bolão.

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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