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Jurani Clementino: Cartografia social do novo coronavírus

Jurani Clementino. Publicado em 3 de julho de 2020 às 13:10

É com um aperto no coração e um nó na garganta que a gente acompanha, aflito, se deslocando no mapa, o avanço da pandemia do novo coronavírus que, de maneira rápida, vai invadindo as mais distantes e remotas regiões do país. Chegando perto de nossos parentes, entrando na casa vizinha, levando embora quem a gente ama e muitos daqueles que nós conhecemos. Nunca prestamos tanta atenção nas finas linhas do traçado destas plantas geográficas. Recordo-me de ter lido relatos de que, durante a Segunda Guerra Mundial, as pessoas acompanhavam pelo mapa as Forças Aliadas invadindo os territórios inimigos. Ouviam no rádio e conferiam naquele desenho colorido, contendo nomes de cidade, países e continentes, o andamento daquela guerra. Iam riscando e, pouco a pouco, desenhando o traçado do conflito. 

Oitenta anos depois estamos novamente de olho no traçado agressivo do inimigo percorrendo e atacando comunidades e regiões indefesas. Mas, agora, de forma diferente. Sem munição, armas, fardas ou bombas intimidadoras. É na invisibilidade, no silêncio, na surdina que o vírus vai avançando sobre os territórios, avizinhando-se da gente, causando o medo e pregando um terror psicológico. O mapa do Brasil foi sendo tomado violentamente e, com certa velocidade, tingido de vermelho. Uma cartografia dolorosa e assustadora. Mais de sessenta mil pessoas não suportaram e tombaram diante do inimigo. Mais de um milhão e meio de brasileiros já foram atingidos diretamente e outros tantos talvez nem saibam que tiveram contato com o vírus. 

Uma doença traiçoeira e cheia de mistérios. Que recebeu todas as atenções de pesquisadores da área, mas que ainda não se descobriu muito a respeito. Forte e feroz. Aqueles que sobreviveram ao seu ataque festejam a vitória como um renascimento, uma espécie de ressurreição. Mas as investidas do inimigo prosseguem. A invasão está em curso. A única forma de contra-atacar ainda é ter cautela. É não desafiá-lo. Não bater de frente. Não chamar para o confronto. Viver se transformou numa longa espera. E para muitos, acostumados a partir direto para o confronto, essa espera é de uma dor e de um desequilíbrio mental praticamente insuportável. Mas não tem saída.

 No mapa, o inimigo segue avançando. Recuar tem sido a única forma de ataque. Até que se desenvolva uma arma eficaz para o combate que a princípio seria uma vacina. Somente com isso, ou depois disso, vamos passar um pano molhado no mapa e apagar essa mancha vermelha. Reconstituir os territórios atingidos e reencontrar as pessoas isoladas. Quando!? Ainda não sabemos! É fácil!? Não, não é!? Todo mundo vai pagar a conta!? Certamente. Mas não podemos negar: é doloroso acompanhar essa invasão agressiva tomando conta, inicialmente, dos grandes centros e agora, de maneira implacável, das pequenas cidades, seus sítios e suas comunidades rurais.

Campina Grande – Paraíba 

03 de julho de 2020

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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