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Jurani Clementino: Brincando de engenheiros – Açudes

Jurani Clementino. Publicado em 22 de abril de 2020 às 20:42

A construção de açudes, no meio fio das ruas calçadas da cidade ou nos terreiros e estradas de terra dos sítios, era brincadeira comum de crianças no período chuvosos. Nada de engenharia moderna ou frentes de emergência para construir aqueles reservatórios. Era tudo improvisado com as mãos mesmo que, aos poucos iam, puxando a terra e represando a água da chuva. Ali também tomávamos banho com aquela água fria que desabava do céu sobre nossas cabeças. Era uma magia danada ver e sentir aquilo acontecendo. Aquelas represas, em miniaturas, sendo preenchidas pelas águas que escorriam das goteiras, caiam no chão e serpenteavam pelas partes mais baixas daquele solo que, a pouco, estava empoeirado. Talvez, aquela brincadeira fizesse parte de nossos sonhos pueris de ver os açudes dos sítios cheios, sangrando, as matas verdes, o barulho das águas dos riachos ecoando nas quebradas e preenchendo o imenso vazio daqueles reservatórios secos. Uma brincadeira que revelava os nossos desejos mais sérios.

Aquelas miniaturas de açudes enchiam rápido. Nem precisava ser uma grande chuva e logo elas estavam transbordando, suas paredes sendo levadas pelas águas ou, quando não, os sangradouros fazendo descer mais água do que as que por ali ficavam represadas. Cada criança queria construir a seu açude maior do que o do outro. Terminava a chuva e estávamos completamente felizes porque havia pensado e executado uma obra da engenharia infantil, digna de reconhecimento alheio, e nos encontrávamos encharcados pela chuva e completamente sujos de lama. Ainda permanecíamos ali, por um tempo, admirando a nossa construção. Imaginando peixes em suas águas nada profundas e esperando o tempo suficiente para que aqueles poços improvisados secassem.

Construções sem custo financeiro algum. Mas com uma recompensa tremenda. Felicidade clandestina era ver aquelas águas ali represadas. Aqueles reservatórios (ou espelho d’água, como chamávamos) se estendendo pelos córregos imaginários. Admirar suas revenças, suas paredes firmes aguentando o peso da água presa. Também brincávamos de arrombar aquelas paredes para sentir a violência das águas indo embora, como se fosse o estourar de uma grande represa. Levando tudo que encontrava pela frente. Provocando uma minúscula destruição que, nas nossas cabeças, parecia devastadora. Água que ia para os rios, que sumia por entre riachos tortuosos, que desembocava no infinito mar. No final das contas, éramos todos engenheiros por algumas horas. Sem nunca ter estudados os cálculos necessários para tal profissão. Eram apenas brincadeiras infantis. Passatempos bucólicos. Simulações… momentos da nossa infância. Experimentos de nossa criatividade boba, mas cheia de ousadia e poesia.

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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