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Jurani Clementino: As duas alianças

Jurani Clementino. Publicado em 23 de janeiro de 2020 às 10:36

Há um ditado popular que diz: “vão-se os anéis, ficam os dedos”. É uma expressão geralmente usada para se referir a grandes perdas. Coisas que não puderam ser evitadas e que lamentamos profundamente, mas que não é, necessariamente, o fim. Vida que segue. No entanto, e quando os anéis nos dedos sinalizam exatamente a ausência de algo, ou melhor, de alguém. Desde muito jovem observei os mais velhos colecionando, nos dedos da mão esquerda, aquelas alianças de ouro. Uma única aliança no dedo anelar da mão esquerda era sinônimo de casado, duas alianças naquele mesmo dedo denotavam viuvez. Era comum tanto na mão do viúvo, quanto da viúva, embora, pelo que percebia, as mulheres pareciam bem mais fiéis aos seus maridos mortos. 

Aquele par de alianças, brilhando na mão esquerda de uma mulher enviuvada ou de um homem solitário, demonstrava uma comunhão eterna entre duas pessoas. Simbolizava décadas de união. Mantinha um laço sagrado entre dois planos absolutamente opostos: o terreno e o celeste, o concreto e o abstrato.  Era um esforço, permanente, em afirmar que tudo ainda permanecia como antes. Que mesmo na ausência ele se fazia presente. Alianças que juntas sinalizavam a união de sentimentos. Que o juramento permanecia firme até que, este último, também cumprisse a sua missão aqui na terra. Havia muito o que pensar ao olharmos aquelas duas alianças unidas em um só dedo. Imaginar quantas histórias e memórias. Quantos sonhos vividos juntos, quantos projetos realizados ou não, quantos desafios pregados pela vida. Alianças desgastadas pelo tempo. Corroídas pela repetição das atividades cotidianas. Capazes de vencer as mais árduas adversidades. Matrimônio testemunhado diante dos homens e sob as bênçãos de Deus… 

Escrevo esse texto porque, da última vez que fui ao Ceará, visitei a casa de minha avó, dona Nenê, de 91 anos, pedi a benção e ao pegar a sua mão para conversarmos um pouco, ela deitada na rede e eu sentado na cadeira, passei minha mão direita sobre aquele dedo enrugado dela com as duas alianças ali reunidas. Perguntei qual era a dela e qual pertencia ao meu avô. Ela foi girando no dedo, aquelas alianças com a mão direita e me explicando a quem pertencia cada uma delas. Não fiz mais perguntas, apenas contemplei aquela imagem numa mão cheia de rugas e repleta de histórias. Para além da frase “vão-se os anéis, ficam os dedos”, percebemos, com tudo isso, que nos dedos também ficam os anéis e alianças que contam histórias, narram memórias e eternizam sentimentos. 

Jurani Clementino – Campina Grande – 19 de janeiro de 2020

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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