Fechar

logo

Fechar

Jurani Clementino: A janela do quarto de dormir

Jurani Clementino. Publicado em 23 de março de 2021 às 9:57

Vocês já sabem, porque já disse por aí, que quando criança eu dormia na casa de minha avó paterna (Dona Nenê). Passei a fazer isso depois que nasceu o filho mais velho de minha tia Leni e, na época, o marido dela precisou viajar para trabalhar em São Paulo. Fui fazer companhia pra ela e para a criança. Depois minha tia foi para junto do marido, levou o menino (claro) e eu fiquei sozinho no quarto.

A casa era imensa (ainda é) e já naquela época muito subutilizada porque apenas eu ocupava um cômodo e meus avós, outro. Só. O resto era vazio e solidão. Isso porque os dez filhos que habitavam aquele casarão, arrumaram seus casamentos, formaram suas famílias e forma embora. Ficamos apenas eu e meus avós. Quando estudava na cidade e saía de madrugada para pegar a fubica de seu Raimundo Soares, era lá, naquela casa, que eu dormia; quando ia para os sítios vizinhos assistir as novelas na década de noventa, era praquele quarto que eu voltava; todas as noites, estivesse onde estivesse eu sempre retornava pra lá.

Tratava-se de um cômodo que ficava na parte lateral entre as duas salas: de estar e sala da cozinha. Para se ter uma ideia do tamanho daquela moradia, a casa tinha onze cômodos. Várias portas conectando esses espaços habitáveis porque minha avó, ao contrário de meu avô, adorava fazer uma reforma. Então bastava o marido sair de casa com previsão de demora para voltar (tipo ir a cidade, fazer uma pequena viagem) que minha avó botava um pedaço de parede abaixo e abria uma janela. Quando o marido dela chegava, era tarde demais. O estrago tinha sido feito. Restavam os acabamentos.

E eu acho que foi dessa forma que abriram aquela janela na parede lateral do quarto onde eu dormia. Porque ela era muito pequenina, completamente desproporcional aos demais acessos daquela casa. O que me levaria logo a suspeita de que aquela teria sido uma das invenções e travessuras de minha avó em modificar aquela casa na ausência do marido. Era tão estranha aquela abertura para fora da residência que não chegava a ser um quadrado nem um retângulo. As janelas das casas sertanejas costumam ser retangulares. Mas aquela desafiava as formas geométricas. Tão pequena que eu não conseguiria nem entrar ou sair por ela. E era alta o que fugia aos padrões normais das janelas que ficam geralmente a uma altura razoável do chão.

Mas era a janela por onde, durante anos, eu enxerguei o mundo. Por ela eu via, logo ali pertinho, a casa de meus pais, o “serrote da grota funda”, o riacho cheio com água das chuvas que caíram na noite anterior, as casas lá do “outro lado”, as curva da estrada por onde, vez ou outra, passavam um vaqueiro, uma mulher com uma lata d’água na cabeça ou algum desconhecido. Foi aquela janela, mal feita e desforme, o meu primeiro ângulo matinal para além da casa porque eu acordava e ia logo abri-la. E quando eu demorava a acordar e meu pai achava que aquela hora eu já devia tá cuidando de alguma coisa, ele ia lá, batia e dizia: levanta menino.

Salvo engano havia bem ao lado dela um pé de pinha. E quando era inverno, os galhos daquela planta tomavam parte da minha visão de mundo matinal. Não sei o porquê hoje acordei saudosamente conectado aquela pequena janela. Acho que pelo motivo de que era dali que eu tirava as minhas primeiras impressões sobre o mundo externo. Muito limitado, mas externo. Com suas serras longínquas e suas estradas sinuosas. A janela era uma passagem, uma conexão entre o mundo de dentro e o mundo de fora. O conhecido e o desconhecido. Isso chega tão forte em mim que, nesse exato momento tenho dificuldade em saber onde realmente estou. É como se tivesse me teletransportado para lá. Para aquele quarto, aquela cama e observasse, nesse exato momento, aquela janela.

Coincidências a parte, a janela do quarto do meu apartamento aqui em Campina fica na mesma posição que aquela da casa de meu avô. Sinto isso pela posição do sol que nunca bate completamente nela. Fica virada para o sul. E o sul era para onde a gente dizia que os moradores do sítio se mudavam. Para onde foram minha tia, o filho dela e o esposo. Até a janela não é mais a mesma. Reformaram a casa e destruiriam a janela. Plantaram outra com formas geométricas bem mais simétricas.

Jurani Clementino – Campina Grande, 15 de março de 2021

Share this page to Telegram

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Mais colunas de Jurani Clementino
Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

[email protected]

Arquivo da Coluna

Arquivo 2018 Arquivo 2017 Arquivo 2016 Arquivo 2015

2018 - Paraiba Online - Todos os direitos reservados.

BeeCube