Fechar

logo

Fechar

Jurani Clementino: A grávida, o “andor” e a “procissão” 

Jurani Clementino. Publicado em 24 de outubro de 2019 às 12:20

Eram duas horas da madrugada do dia 22 de fevereiro de 1985. Chovia muito há dias. Os riachos estavam cheios. O sítio vivia praticamente isolado. Ninguém entrava nem saía de carro por ali porque as estradas estavam interditadas. Minha tia Piedade chegava aos nove meses de gestação e, bem naquele dia, deu início a um delicado trabalho de parto. Parteira nenhuma dava conta de botar aquela criança no mundo. Era preciso levar aquela mulher até a presença de um médico. Mas como fazer isso? Com as estradas esburacadas, os riachos transbordando, o lamaçal tomando conta de tudo seria impossível socorrê-la com o apoio de um carro. A única saída era chamar os vizinhos e improvisar um socorro.

O marido de minha tia saiu, em desespero, batendo nas portas e acordando os vizinhos. Em questão de minutos, dez homens estavam prontos para socorrê-la. Quatro pedaços de madeira foram amarrados a uma cadeira de balanço. Sentada naquela engenhoca, minha tia foi conduzida, às pressas, por aqueles homens, como se fosse uma santa carregada em cima de um andor. Aquela espécie de romaria seguiu, debaixo de uma chuva torrencial, atravessando riachos e terrenos encharcados com água até o joelho. O cortejo com a grávida em apuros saiu por dentro das roças de algodão, subindo e descendo ladeiras, atravessando as cercas de arame farpado e as cancelas de madeira. Seis quilômetros do Sítio Queixada até o Sítio Jatobá. Como já haviam atravessado o Riacho do Machado, que estava cheio de uma ponta a outra, tomaram uma pikup – C10 pertencente a Manuel Salvador que estava do outro lado do riacho, mas que andou alguns quilômetros e deu o prego antes mesmo de chegar a BR-230. Agonia que recomeçava. Já no Sítio Saco, hoje Bom Jesus, acordaram Antônio de Edalva, mas ele disse que não podia fazer nada porque uma das meninas tinha pegado a chave do carro pra brincar e havia perdido. Desesperado, meu avô, disse que minha tia teria o mesmo destino da mãe dele: morreria de parto.

Mas ele estava enganado, pois minutos após ele ter profetizado isso, chegou, numa carreira de perder o fôlego, a esposa de Antônio de Edalva dizendo, para o alívio de todos, que havia acabado de encontrar a chave do fusca. Dessa forma, Tia Piedade foi conduzida as pressas para o Hospital São Raimundo Nonato em Várzea Alegre. O médico doutor Raimundo Sátiro realizou uma cesariana e passava das sete da manha quando veio ao mundo o menino Vicente, o sexto e ultimo filho do casal, Piedade e Zé Leandro. O nome da criança foi uma homenagem ao avô paterno, seu Vicente Leandro, o sanfoneiro da comunidade.

Eu tinha seis anos de idade quando isso aconteceu. Achei que nem lembrasse direito dessa cena. Mas esta é uma imagem que faz parte da memória de um sertão profundo, deserto, isolado, perdido nos mais longínquos recantos desse país. Aquela espécie de “romaria”, com uma grávida em apuros, era a única e eficaz solução para resolver os casos de mulheres em trabalho de parto, mas também para conduzir até os hospitais algum idoso que precisava de um atendimento médico urgente, acidentados e enfermos de toda sorte.  

    Jurani Clementino

Campina Grande – PB 14 de outubro de 2019

Share this page to Telegram

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Mais colunas de Jurani Clementino
Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

[email protected]

Arquivo da Coluna

Arquivo 2018 Arquivo 2017 Arquivo 2016 Arquivo 2015

2018 - Paraiba Online - Todos os direitos reservados.

BeeCube