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Jurani Clementino: A casa da Betânia

Jurani Clementino. Publicado em 27 de abril de 2021 às 12:14

Foi com o apoio de um projeto do governo do estado do Ceará, voltado para a construção de casas populares, que nos anos de 1990, o meu pai ergueu uma casinha de dois cômodos no final da rua Vila Cacilda, ali no Bairro Betânia. Uma edificaçãozinha acanhada perdida na sua própria timidez. Feita as pressas para atender as urgentes necessidades que os filhos tinham de estudar. De início fomos morar lá eu, minha irmã Dalva e minha prima Alana. Depois chegaram mais outros três primos: Vicente, Elaine e Reginaldo. Nela só existia o básico: um surrado fogão a gás, uma mesa de madeira, quatro cadeiras e redes de dormir. Não havia geladeira e a gente precisou da ajuda de duas vizinhas: dona Aurení e dona Francelí. Elas eram amigas de meus pais e se dispuseram a nos apoiar. Então, sempre que precisava, a gente levava alguma coisa para conservar na geladeira delas. Seu Severino, esposo de dona Aurení, tinha maior carinho por nós. Chamava a minha irmã Dalva de Dalvinha e todo dia passava por lá pra saber como tinha sido a noite e se estávamos todos bem.

Era como se fosse uma pequena barraca. Só que feita de tijolos e coberta com telhas. Mas até o quintal lembrava coisas do sítio porque era um cercado feito de madeira. Cerca de estacote (madeira). Uma espécie de proteção para a porta da cozinha. Na frente daquela minúscula casa tinha uma lagoa. Quando ela enchia, a água vinha bater a nossa porta. Depois da lagoa existia um campinho de várzea onde, toda tarde, os meninos da rua de cima desciam para jogar bola. A gente sentava na porta ou ficava acompanhando os jogos de pelada pela janela da frente. Anoitecia e os sapos abriam o berreiro dentro da lagoa. Era um cantarolar sem fim. Barulho também faziam muriçocas. E a gente inventava um jeito de suportar aquilo.

A casa não tinha rádio nem TV e para ajudar a vencer o tempo ficávamos conversando até altas horas. Cada um na sua rede. Naquele espaço minúsculo, todo mundo escutava as histórias dos outros e tenho certeza de que até quem passava do lado de fora também ouvia nossas conversas. Nas noites de maio a setembro batia um vento forte que assobiava no telhado. Cantiga de vento sertanejo. Vento que fazia carreira das bandas de baixo. Que percorria o leito do Riacho do Machado. Soprado em direção ao poente, surgido dos lados da casa de Doutor Iran Costa. Ainda não existiam aquelas casas todas praquelas bandas. Era uma construção perdida aqui acolá. Por isso o vendaval era forte e constante.

Algum tempo depois fizemos uma reforma, mas desde que vim embora para a Paraíba a casa vive fechada. Meu pai nunca quis alugar. Soube que perdeu o gosto por aquela casinha tímida. Nunca perguntei o motivo, mas acabei sabendo que, para ele, aquela residência virou sinônimo de tristeza e sofrimento. Nossos pais sempre tem razão, mas eu confesso que vivi bons e inocentes momentos ali.

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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