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Jurani Clementino: A casa abandonada, o açude e a imaginação

Jurani Clementino. Publicado em 1 de julho de 2021 às 10:27

No final de tarde da última segunda-feira (28/06) eu voltava da cidade de Várzea Alegre – CE, para o sítio Queixada e, quando passava ali pelas Timbaúbas, bem na parede do açude do empresário João Siebra, parei o carro no meio da estrada e, da janela do banco do motorista, fiz umas fotos e um vídeo de uma imagem que me chamou bastante atenção. Bem diante dos meus olhos, estava uma casinha que fica num local privilegiado: virada para o nascente, na beira do açude e com uma visão deslumbrante do leito do Riacho do Machado…

Mas não foi apenas isso que me prendeu a atenção, talvez tenha sido mais tocado pelo fato de que a antiga construção está abandonada. As paredes todas manchadas e envelhecidas, o teto aparentemente danificado pelo tempo, as portas sendo devoradas pelos cupins, o reboco resistindo a mão implacável dos anos, a vegetação invadindo o alpendre e dominando completamente o espaço onde era o terreiro, um poste levando até lá uma rede elétrica sem utilidade alguma, um frondoso juazeiro onde era o terreiro da cozinha…

Foi instintivo: Parei, fotografei e fiquei com vontade de ir até lá. De atravessar a cerca de arame farpado, as águas do açude e observar o mundo na posição contraria a que eu estava: a partir do alpendre daquela velha morada. Senti o desejo de verificar o ângulo estando do lado de lá. Como deve ser bonita a visão do reservatório cheio d’água, da serra de São Nicolau delineando as curvas do horizonte, o leito reluzente do Riacho do Machado em dias de lua cheia, a alegria dos animais pastando, das pessoas passando na estrada por sobre a parede do reservatório… Queria saber como eram as noites ali, próximo daquelas águas tranquilas, de quando a lua desponta no horizonte e lentamente vai ganhando espaço no céu e refletindo naquelas águas da barragem… Para qual lua olhar: a que está no céu ou que que desceu sorrateiramente para a terra?

Depois segui o meu caminho e deixei aquela morada lá, sozinha, abandonada com suas histórias, completamente ignorada em suas vantagens e possibilidades. Estacionei novamente, dessa vez debaixo do pé de oiticica de Seu “Raimundo dos Bolos” e comprei pães de ló e doce de leite. Cheguei em casa e toquei fogo na fogueira de São Pedro e voltei novamente a imaginar aquela casa velha e mal cuidada.

Como seria a imagem da fogueira ali naquela casinha. As chamas iluminando o espelho d’água, clareando a escuridão, dando vida e alegria àquele espaço inabitado? Com as crianças correndo pelo terreiro, os adultos conversando debaixo do alpendre, as mulheres fazendo chá na cozinha e servindo com pão de arroz… Como seria o São Pedro ali com a brisa fria da noite circulando pelo sinuoso do Riacho do Machado, beijando suavemente aquele espelho d’água e cumprimentando os moradores e visitantes sentados naquele alpendre… Enfim. Chega de outonos. Tá bom por hoje.

Jurani Clementino
Campina Grande – PB
01 de julho de 2021

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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