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Josemir Camilo: Uma Diocese contra o Fanatismo

Josemir Camilo. Publicado em 4 de março de 2021 às 20:39

De leitura fluida, sem cair na trivialidade, linguagem enxuta, assim é o ensaio de Francisco Sales Cartaxo Rolim “Guerra ao Fanatismo: a diocese de Cajazeiras no cerco do padre Cícero”. Bem dividido, o ensaio parte da tese de Sérgio Miceli, “A Elite Eclesiástica no Brasil”, não para refutá-lo, mas observando certo contexto particular, principalmente quanto à criação de novas dioceses: se no Império havia 12, na Nova República (até 1930) subiu para 56.

Dividido em cinco capítulos, o livro provoca uma leitura rápida, revisitando o Império, quando a igreja era funcionária pública, de acordo com a interpretação que o governo imperial fazia da instituição chamada Padroado, herança do colonialismo português.

Em seguida, Cartaxo situa, sem repetir a cantilena sobre o Juazeiro já apregoada, em O cerco ao padre Cícero, para mostrar que a igreja católica propôs a criação da diocese de Cajazeiras para fechar o cerco contra o fanatismo, levando em conta o outro lado do Cariri brejeiro cearense com a instalação da diocese do Crato, o que já havia causado forte impacto sobre Cícero Romão, já que este defendia o bispado em Juazeiro, sob o título difuso de Diocese do Cariri.

A igreja, pressionada tanto pelo abandono do estado republicano, como pela criação do casamento civil, buscou corrigir distorções que durante o Império criaram um clero de mancebia e filiações, ou até, pelo lado positivo, fizera surgir um criador de santuários e de uma congregação, padre Ibiapina.

De fato, o papado procurava romanizar esta igreja difusa, caótica, com reações de emancipação como no caso dos bispos de Pernambuco e do Pará, em 1874. Por outro lado, havia a submissão ao poder, em aliança com as oligarquias rurais, culminando por um lado com a insurgência de Canudos do Conselheiro e, já no século XX com o padre Cícero, o subsequente caso do Caldeirão.

O ensaio de Cartaxo me fez lembrar a reação franciscana a Cícero Romão, com a criação do santuário de São Francisco, lá mesmo no Juazeiro. Também me lembrou a continuação de poder político e desregramento sacerdotal como o caso do padre Aristides enfrentando armado a Coluna Prestes.

Os três últimos capítulos são dedicados a explorar as articulações políticas e eclesiásticas para implantação daquela diocese no alto sertão paraibano, a trinta léguas do reduto de Cícero Romão.

Excelente ensaio! Produtores intelectuais e administradores públicos como Francisco Cartaxo bem merecem um lugar no Instituto Histórico e Geográfico Paraibano. Seja bem-vindo, Cartaxo!

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Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

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