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Josemir Camilo: Tergiversação de um escritor/leitor ingênuo fazendo ‘leitoratura’

Josemir Camilo. Publicado em 16 de novembro de 2019 às 9:24

Convidado para uma Mesa Redonda sobre o título “Os Escritores Campinenses e seus Leitores”, na II Feira Literária de Campina (II FLIC), organizei um texto que vai a seguir, com os cortes próprios a um artigo.

Me (licença poética!) entregaram uma bola de cordão com várias pontas; qual delas puxar, se todas têm a mesma extensão e validade. Puxo o fio da literatura, para falar de escritores ingênuos e seus leitores ingênuos; puxo outro, para falar de literatura como proposta discursiva; mais uma pela repulsa ao signo defraudado (“queixada de baratas”, “galho de bananeira”); e romance com nota de rodapé. Também tenho um pé atrás com escritor/leitor ingênuos quanto ao nordestinês, se não se fizerem as dobraduras devidamente literárias. A respeito de escritor sentimental e leitor ingênuo, ver como o turco, Orhan Pamuk, Nobel de Literatura, os trata, em seu O Romancista Ingênuo e o Sentimental.

Resolvo ficar com a ponta que leva ao mais simples, ao leitor de crônicas de jornais.

Escrever é escritura; nem sempre é literatura. Escrever sem autoria não gera literatura, é pura escrevinhação. Ler é decifrar; nem sempre é leitura. Só se é leitor, em coautoria com o autor/escritor.

Falo de minha experiência na coluna O Povo, de 1988 a 2000, analisando o feedback formal do jornalista/diagramador e do leitor ingênuo, para me concentrar num caso apodítico, o homem que se alimentava só de frutas. Pode-se discutir, também, a falsa ideia de falar pelo povo; de dar voz ao povo.

Fui eleito para Academia de Letras de Campina Grande por causa da minha atividade na coluna O Povo, criada pela editora do suplemento Painel, a jornalista Adelma Irineu, que me disse ter visto nos meus artigos de Opinião, no mesmo Jornal da Paraíba, temas e linguagens que poderiam ter um próprio espaço: coisas do povo. Essa coluna ficou no ar, na prensa, até o ano de 2000, quando Painel deixou de existir. Foram produzidas 470 colunas, variando de crônicas a poucos artigos de opinião, e algo do tipo de jornalismo popular. A coluna se adaptou em forma de um texto de uma lauda, com meia lauda de tiradas populares, gírias, pensamentos populares tradicionais.

A captação do material era feita na rua, na feira, no calçadão e na Praça da Bandeira, junto aos engraxates, aos taxistas, aos barbeiros/cabelereiros e principalmente, no ônibus, já que usei frequentemente o transporte coletivo. Tive três fontes básicas: minha vida, como “pessoa de cor e pobre”, como me afastaram, adolescente, de uma namoradinha, na minha cidade, Goiana; a minha vivência, moradia nas Malvinas, durante uma década, onde a realidade suburbana oferecia um potencial de textos, senão literários, mas do cronicário jornalístico; e a função de professor, mesmo universitário, mas com uma plateia parcialmente interiorana, o que me devolvia certas similaridades com o passado.

Era o escritor/leitor de uma realidade e o que me animava era a produção de feedback que a coluna ia tomando, porque, em boa parte, populares que sabiam que escrevia para jornal, como taxistas, começaram a me contar seus ‘causos’, para que botasse no jornal. Na segunda-feira, lhes entregava uma cópia xerox do recorte do jornal; o que gerava mais feedback, com novas histórias, novas versões de histórias velhas e até histórias de assombração. Crônicas como O Couro de Bode e a história do motorista que dormiu no cemitério, porque na pequena cidade não havia hospedaria, foram produzidas intencionalmente, por leitores, contadores orais de vivências, para que surgissem no papel.

Se a leitura crescia, eu, às vezes, tinha de virar repórter, ir em busca de causos, notícias, ouvir gente desconhecida, para manter ativa a coluna. Quando o assunto era crítico e muito próximo, dava para cruzar a minha vivência goianense e a realidade; portanto, fazia ficção. Enganava-se quem pensava que falava pelo povo; escrevia minhas percepções de vida, inclusive assumindo formas escritas de auto confissão, realista, como a crônica “Carta sem Endereço”.

Como cronista, experimentei, também alguns dissabores, poucos, realmente, mas que me devolvia a um enigma que tinha captado no filósofo francês, Henri Lefebvre. O caso exemplar foi a do homem que fizera pacto com o diabo para ter riqueza. Esta crônica teria passado totalmente despercebido por moradores da minha localidade, já que poucas pessoas, ali, liam jornal e, pior ainda, ter tempo para ler suplemento. Mesmo, assim, a ‘reportagem’ que fiz foi ficcionada (e agora, já não me lembro, se antes ou se na minha defesa pessoal), levando o caso para outra cidade. A crônica registrava um comerciante, na cidade de Patos, que fizera tal pacto, através de um sonho, para melhorar seu negócio e que só deveria ingerir frutas. Com o tempo, todos os fregueses percebiam que o homem estava ficando amarelo, mas não largava o hábito. Recebia, rindo, o apelido de conhecidos chamando-o de passarinho etc. Foi, nesta altura, que reproduzi, no jornal, o que se dizia na rua. Tempo passou.

Um feio dia, outro que já fora personagem de outra coluna, o homem do colírio, (era um cidadão que pedia tudo que alguém tivesse no bolso da camisa, mas, basicamente, cigarros. Um dia, viu o volume no bolso da camisa de um conhecido e pediu um cigarro; que não era carteira, não tinha cigarro; era uma caixa de colírio. E ele não se fez de rogado: Ô, rapaz, tou com problema no olho, pinga um pouquinho, pinga!”). Pois bem, me chamou, quando ia pegar o ônibus e mostrou um pedaço de jornal que preenchia o espaço entre dois copos americanos, a embalagem dos copos. Isto na frente da venda do rapaz frutívoro, que prestava atenção ao que o homem do colírio dizia.

Restos de jornal serviam para embrulhar compras. E apesar de estar na crônica que o caso se passara em Patos e o vendeiro era crente, o homem das frutas, entre chateado e orgulhoso, mais o primeiro que o segundo, perguntava se não era com ele, e que não havia pacto nenhum com o ‘inimigo’ e que se era com ele, tava errado, que ele era crente mesmo e as coisas tavam melhorando porque o Senhor tava vendo o sacrifício dele.

Embora insistisse que o caso me fora contado por alguém de Patos e que aquilo ocorrera, lá, saí da conversa com um gosto de cabo de guarda-chuva na boca e me questionando até onde tinha ido.

A máxima que tiro de Lefebvre (Lógica Formal e Lógica Dialética) é: “Existe algo de dissolvente, de destrutor na inteligência tomada separadamente, funcionando à parte enquanto função individual (…) e é por isso que o intelectual mais puro – o herdeiro do antigo bruxo – é um ser humano do qual o homem médio desconfia instintivamente e o abandona à sua solidão, não sem motivo, pois esse diabolismo da pura intelectualidade manifesta-se tanto na vida quando na arte – o satanismo de Baudelaire”.

Este parece ser o papel a que o literato está condenado!

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Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

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