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Josemir Camilo: Síndrome do pelourinho

Josemir Camilo. Publicado em 22 de setembro de 2020 às 10:44

A derrubada da estátua de Ariano Suassuna no Recife causou (poderia parar neste verbo, agora ressignificado na mídia e nas redes) espanto e revolta nos meios culturais. Apareceram muitos interpretando como falta de respeito, de educação; outros advogaram que o governo deveria recolher estátuas e pô-las em museus. Terceiros advogavam mais educação. Sociedade desigual gera valores ou não valores desiguais. Outro dia, foi o cruzeiro da Sé de Olinda.

Não esperemos que o povo se reconheça em monumentos produzidos pelas altas e médias classes. E o que é povo, é bastante discutível. Outro dia, vendo o programa Sankofa, um historiador baiano falava da ressignificação (do Largo) do Pelourinho, em Salvador, lugar, outrora, de tortura a céu aberto (que os brancos historiadores transformaram em castigo – discurso patriarcal e divino), hoje, lugar de vivência, produção e ambientação afro-baianas.

Mas esta ressignificação está longe de ocorrer, no geral. Já venho observando destruição de certo patrimônio histórico e arquitetônico desde a década de 1970, quando estagiei nas escavações do piso da Igreja do Seminário de Olinda. Esses monumentos não têm significação para os que passam fome, ou estão em desemprego crônico, toda a vida; estes cidadãos de segunda categoria, que a elite, assim, os mantém. No entanto, no mesmo espaço de conflito, há convivência. Tomando o exemplo do largo da Sé, em Olinda, quando a reforma da praça (para o tombamento da cidade como Patrimônio da UNESCO), os vendedores de tapioca reagiram, quando quiseram retirá-los de lá, defendendo o seu território: isto, para eles é patrimônio, onde estão até hoje. Acordos e reassentamento acalmaram os ânimos.

Foi, daí, que passei a chamar de ‘síndrome do pelourinho’, quanto à questão de patrimônio: querem que o povo veja como cultura, patrimônio, memória, coisa que lhe traz dor, estigma etc. Cruzeiros podem ter um significado redutor pela via da religião; mas, afastado desta, é apenas uma construção, da qual só entraram trabalho e dor dos ancestrais. É uma coisa estrutural. Esta terra não era dos nossos ancestrais indígenas, porque os caboclos hoje lutam pela terra? Os direitos políticos conquistados historicamente pela sociedade brasileira foram, também, desiguais. Basta lembrar o que significou a balela da Independência no olhar do povo negro, que acreditou, piamente, que se separando o Brasil de Portugal, acabaria a escravidão. Gemeram mais de 6 décadas no tronco e com a Lei Áurea, curta e grossa: acabou a escravidão! Se virem! Um milhão ou mais de seres humanos ao léu, esmolambados, desempregados, sem terra para plantar, sem qualificação para trabalhos urbanos e industriais, sem qualquer poupança ou capital. E, hoje, continua a desigualdade gritante.

Fiz este artigo, lendo a manchete na mídia: Brasil chega a 238 bilionários.

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Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

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