Fechar

logo

Fechar

Josemir Camilo: Reflexões sobre a Independência

Josemir Camilo. Publicado em 7 de setembro de 2020 às 11:34

Poderíamos começar até por uma dualidade, que pode parecer meio conspiratória: a nossa Independência foi proclamação ou golpe? Hoje, já se admite que a “Proclamação” da República foi um golpe militar, com apoio do Partido Republicano – e outros golpes viriam nesta esteira: 1930, 1937 e até 64, em que hoje, até a Globo (apoiadora, ou silenciadora, na época) já chama de golpe.

Mas, aqui, pretendemos refletir sobre o ato político e as circunstâncias daquele momento, que nos renderão, agora, o seu bicentenário, daqui a dois anos. Tomo como parâmetro a luta dos pernambucanos que se anteciparam cinco anos na luta pela Independência. Como esta era republicana e maçônica vermelha, não interessava aos aduladores monarquistas e maçons azuis e esta ideia foi abafada de muito vermelho sangue. Ali, seria revolução, apesar de liderada por alguns militares, havia o clero, o povo, parte dos estamentos (classes, hoje) sociais e havia, sobretudo, um manifesto (chamado “Preciso”) e um programa de mudanças. A Paraíba foi, também, grande partícipe deste importante ato político, embora de baixa repercussão em todo seu território.

Mas a Independência proclamada pelo Príncipe Regente, embora tenha sido um golpe através de um gesto intempestivo, dois anos antes, vinha sendo gestada, a ponto de Pedro, comandado por José Bonifácio, fazer mesuras até para impertinentes adversários. Tal é o caso da resistência da Junta de Pernambuco, presidida por Gervásio Pires, eleito após a expulsão do último general governador português de Pernambuco, Luiz do Rego. Gervásio Pires era adepto da Constituição portuguesa e fidelíssimo ao rei D. João, que já havia partido para Lisboa e deixado, por interesses políticos, seu filho na regência do Reino Unido Brasil.

Até mesmo para Frei Caneca (ex-preso político de 1817), o príncipe deve ter sido orientado a aceitar seu escrito e autorizar a publicação o ‘Patriota’ (título resumido). No entanto, três anos depois o condenaria à morte quando o frade assumira, exatamente, o papel de cidadão patriota, em 1825.

Vejamos, numa rápida cronologia, como Pedro chegou ao Poder. Em 22 de abril de 1821, D. João VI o nomeia príncipe regente do Brasil; em 29 de setembro deste mesmo ano, as Cortes decretam o regresso imediato do príncipe a Portugal, sugerindo viagem de estudos pela Europa, mas, na verdade, tentando reduzir o Reino Unido Brasil à colônia, pois o decreto anulava quase todas as leis anteriores que igualavam o Brasil a Portugal. Já em janeiro de 1822, D. Pedro bate o pé e diz (para uma futura marchinha de carnaval): “daqui não saio…”;

Mas logo, ele mostra quem manda com mão de ferro, pois a Bahia andou fazendo uma insurreição pela independência brasileira, e ele a abafou. Estava se gestando O Príncipe (de Maquiavel) à brasileira. Tratava-se de que alguns deputados brasileiros, como Cipriano Barata, já desconfiados do caráter neocolonialista das Cortes, saíram clandestinamente de Lisboa, e organizaram aquele movimento. E começa a mandar: cria o primeiro gabinete ministerial formado por brasileiros; suspende a concessão de sesmarias; declara inimigas todas as tropas portuguesas enviadas ao Brasil. O imperialismo português parece correr nas veias de Pedro e, ignorando tratados, invade o Uruguai, anexando-o como Província. E vai caminhar pelas estradas de Santos, quando… chega o 7 de setembro.

Também finge, D. Pedro. Como as Cortes portuguesas haviam recomendado eleições de Juntas provinciais, ele repercute como se autor fosse. Como o governador de Pernambuco era outro absolutista, também fingiu e organizou um Conselho em que ele mesmo se fez nomear Presidente ao tempo em que continuava governador. E para mostrar que não confiava no Príncipe Regente, preferiu pedir ajuda ao governador da Bahia e não ao Príncipe, para reprimir o movimento liberal que explodira em Pernambuco, na vila de Goiana em 1821.

D. Pedro começou, em fevereiro de 1822, por convocar a formação de um conselho de procuradores das Províncias e para se defender, pôs em sua frente José Bonifácio. Os áulicos começaram por pedir que cada Província legitimasse D. Pedro como Príncipe Regente. Como a Junta de Pernambuco recorreu à Constituição para evitar o reconhecimento, por desnecessário, D. Pedro e José Bonifácio articulam, com um emissário vindo do Rio, um golpe contra Gervásio Pires. Engraçado que tal se dá, em 16 de setembro e ninguém, em Pernambuco, sabia (nem poderia saber) da ‘proclamação’ da Independência, cuja notícia só chegaria em novembro. Mesmo assim, o novo governo pernambucano, entendendo o caminho pretendido por D. Pedro, aderiu à política emancipacionista.

Em 12 de outubro de 1822, D. Pedro é proclamado imperador do Brasil. E para acabar com as dissidências regionais, introduz o regime de Presidentes de Província por ele nomeados; em seguida, em dezembro, é coroado imperador do Brasil.

Seu sonho absolutista se realizará no ano seguinte, ao discordar das propostas da Constituinte; fecha o Congresso e provoca novo caos: a Confederação do Equador, em 1824.

Share this page to Telegram

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Mais colunas de Josemir Camilo
Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

[email protected]

Arquivo da Coluna

Arquivo 2018 Arquivo 2017 Arquivo 2016 Arquivo 2015

2018 - Paraiba Online - Todos os direitos reservados.

BeeCube