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Josemir Camilo: Os 60 anos da Sudene

. Publicado em 19 de dezembro de 2019 às 19:31

A criação da Sudene está ligada a dois paraibanos, um campinense, de menor impacto e o outro, pombalense, a locomotiva que atrapalharia o atraso em que vinham os estudos para desenvolver o Nordeste. Celso Furtado voltou a morar no Brasil, em 1958, depois de ser cidadão do mundo ocidental, pois não há cidade importante no contexto da pós-guerra em que ele não tivesse estado ou passado, visto. Anotado. Foi da hecatombe da segunda guerra mundial que ele tirou lições de como planejar para desenvolver áreas destruídas ou em grave situação de risco. E foi o que ele viu exatamente, no seu Nordeste, naquele ano, de terrível seca.

Nomeado diretor do BNDE(S) (à época, não havia o ‘S’ de social), Celso deu toda a inclinação para a área crítica do país. Desde o governo anterior, o segundo de Getúlio, que a política desenvolvimentista buscava soluções para o atraso do Nordeste. Não foi à toa que Getúlio se cercou de quatro grandes paraibanos: José Américo, Cleantho de Paiva Leite, Aluízio Campos e Celso Furtado. Constituiu-se o Banco do Nordeste (cuja redação dos estatutos foi de Aluízio Campos), além do BNDE. Mas a coisa não andava. Veio Juscelino e a burocracia ainda emperrava o desenvolvimento regional, pois o populismo baseado em ‘combates’ à seca, enfeudava o DNOCS e tudo parecia ser apenas a salvação da lavoura. Celso, pelo contrário, ignorava a água (no que foi criticado por Zé Américo) e via o desenvolvimento industrial como saída para ocupar as grandes manchas populacionais.

Aluízio Campos teria sido o fundador da Sudene, pois capitaneava um grupo, em 1957, mesmo como advogado do Banco do Brasil; participou da criação do GTDN (Grupo de Trabalho para Desenvolvimento do Nordeste), do qual foi nomeado chefe. Quando a situação da Paraíba e do Nordeste se agravou em 1958, com a grande seca, Aluízio (pelo GTDN) vai trabalhar junto com o paraibano de grande renome, Celso Furtado, este como membro de uma diretoria do BNB, ambas as instituições (baseado nos dados do GTDN) lançam “Uma Política de Desenvolvimento Para o Nordeste”.

No começo de 1959, Juscelino criou o CODENO (Conselho de Desenvolvimento do Nordeste), com sede no Recife, do qual Aluízio tornou-se membro. Isto em fevereiro de 1959; em dezembro, a partir deste órgão, o Presidente Juscelino Kubitschek cria a SUDENE (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste). Automaticamente, Aluízio Campos passa a pertencer aos quadros da novel instituição até ser afastado pelo golpe militar em 1964.

Como Celso passou Aluízio nesta corrida desenvolvimentista? Questões de formações universitárias; Aluízio, homem das letras jurídicas, desde 1947, fora cooptado pelo Banco do Brasil, indo morar no Rio de Janeiro, capital federal. Deixou, inclusive, o mandato de deputado estadual, para o qual fora eleito em 1950. Celso, o homem da economia; embora tenha feito o mesmo percurso de Aluízio – Liceu Paraibano (onde também estudou Cleantho de Paiva Leite), e curso de Direito (Aluízio, no Recife; Celso no Rio), o pombalense trocou Direito por um doutorado em Economia, na Sorbonne. Isto diz tudo. E mais, estudou in loco as economias devastadas pela guerra. Conviveu com grandes economistas, tanto na Europa, como nas Américas; trabalhou no Chile e no México, visitou vários países hispano-americanos, portanto, adquirindo uma visão de totalidade dos problemas econômicos e sociais.

Juscelino viu que o campinense tinha um jeito mais lento de proceder as pesquisas no Nordeste, ou sobre, principalmente porque achou de convocar técnicos e economistas norte-americanos para tal envergadura. Os estudos monográficos levariam tempo para ser concluídos.  Juscelino querendo desenvolver os 50 anos de atraso do país em cinco anos, viu que não dava para esperar tanto, haja vista que o clamor da população com a seca de 58, corroborava o encontro dos bispos do Nordeste (Natal e Campina Grande – diz-se até que a Sudene teria nascido do encontro de Campina, em 1956), então o presidente trocou as peças do xadrez econômico. Ciúmes rolaram, na certa, mas o projeto tinha que ser deslanchado rapidamente. Pena, que depois de cinco anos de plena vitalidade, a Sudene tenha perdido o seu cérebro, com a cassação política de Celso Furtado e o afastamento de Aluízio Campos. O Nordeste perdia duplamente.

No grande quadro ideológico, por trás de cada um destes dois paraibanos estavam duas propostas de desenvolvimento em choque: Celso, fazendo parte da ideologia desenvolvimentista de recuperação de áreas degradadas sob o comando das Nações Unidas. Aluízio, por sua vez, se alinhava, sem perceber, com a linha preconizada pelos Estados Unidos, pelo tratado de Breton Woods, que pretendia um desenvolvimento com pouca ou nenhuma intervenção do estado. A partir de 64, esta segunda suplantaria (duvidosamente) a da intervenção do Estado, defendida por Celso Furtado.

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