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Josemir Camilo: O papagaio de Javé

Josemir Camilo. Publicado em 22 de agosto de 2020 às 11:31

Começo com uma paródia, quanto ao título, que me saiu sem titubear; depois, analisando, cheguei ao Papagaio de Flaubert, de Julian Barnes, que tem causado certo impacto na minha narrativa memorialística, romanceada.

Nesta quarentena, revi Memórias do Cárcere (de Nelson Pereira dos Santos, 1984) e me espantei por um signo que, até ali, não era signo, mas apenas uma engrenagem na estrutura narrativa. Como leigo, e aqui me refiro à crítica cinematográfica, comecei a pensar que um signo não existe ‘per se’ se não for ressignificado; caso não o seja, morre como tal, se petrifica, é um ato comum ou uma criação em vão.

É o seguinte, ninguém nota um gesto comum em Narradores de Javé (2004), de Eliane Caffé, e que tive um estalo quando vi o mesmo gesto em Memórias do Cárcere. Nosso excelente José Dumont, que está nos dois filmes: protagonista, num, o Antônio Biá, e coadjuvante, noutro, o Mário Pinto, se chega para o personagem Ramos (Graciliano) e lhe entrega um maço de papel almaço e um lápis que roubou de algum lugar na prisão e entrega-os para que o escritor continue a anotar suas Memórias do Cárcere (que teria outro nome).

O que eu quero dizer é que em Memórias, o gesto de Dumont/Mário Pinto não é um signo destacável na narrativa, inclusive mais dois figurantes fazem o mesmo depois, ou quase.

Até aí, tudo passaria sem maiores significados. Em Javé, é o mesmo José Dumont/Antônio Biá que recebe de outrem um livro de papel almaço encadernado e um lápis para escrever a memória do lugar. É o mesmo gesto e o elemento de passagem do signo é o ator/personagem, significando o papel de Ramos, na prisão; digamos que em Javé, a diretora quis homenagear o gesto de Memórias de Nelson. É isso? E, mais uma vez, mal parodiando, o Biá é um verdadeiro papagaio, em sua comunidade.

Outro signo que descobri dias atrás, quando revi o Cangaceiro, de Lima Barreto, nosso primeiro prêmio em Cannes – não o principal, mas o filme ficou cinco anos em exibição na França. Descobri (ou seja, passou a ter significado para mim), outro signo perdido: o papagaio. Aparece (e eu nunca me lembrei disto, antes) em O Cangaceiro (1953), aleatoriamente, no acampamento dos cangaceiros, mas parece não passar disto.

Como o filme foi vencedor em Cannes, achei que o diretor Lima Barreto, se pensou em internacionalizar o filme, queria dar um cunho de brasilidade, não tanto pensando em ganhar a França, mas, talvez, pensando em mostrar que o Nordeste também era a Terra dos Papagaios; exatamente neste sentido, Brasil.

Vale lembrar que os diálogos do filme são da escritora Rachel de Queiroz, baseado em sua peça Lampião. Mas, imediatamente, me lembrei que, em Vidas Secas (outro filme de Nelson Pereira dos Santos, de 1963, extraído da literatura e voltando ao autor Graciliano Ramos), também há um papagaio, que não fica no plano do simplesmente simbólico (a mesma terra dos Papagaios – o velho Nordeste), mas é devorado como símbolo nacional (?), quando a fome aperta. O que deixa margem para os limites entre a antropofagia do modernismo e o realismo social?

É esta petição de princípio, ou de autoridade, ou do que se possa chamar, que entendo como a dobra significante, que faz com que um texto ou um filme seja literatura ou cinema, de fato.

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Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

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