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Josemir Camilo: O dicionário binomial de signos de Zédimilson

Josemir Camilo. Publicado em 14 de dezembro de 2019 às 11:20

Sob o enigmático título A Poética do Ridículo, o escritor, poeta e o maior memorialista (precoce!) de Campina, José Edmilson Rodrigues entretém o leitor em suas 143 páginas. Estou aqui graças à Convivência e à Cumplicidade e ele, a Graças, a quem dedica “Os Perdões da Interioridade”; não há Erro nem Engano, apenas Habilidade e Destreza, porque é um poeta sem Medo, mas ao contrário do seu título, com Ousadia; o Símbolo e o Mito, ou Morte e Vida, temas sempre dicotômicos. Eu diria que este caráter dicotômico, além de ser a primeira parte do seu gracioso e bem editado volume, pela Mondrongo, percorre todos os outros ensaios e cronicontos. Acrescentem-se a inveja e o ciúme, a primeira retemperada por mais de um ensaio. Condições humanas.

Com parágrafos longos, às vezes, o autor abre crônicas e ensaios, com pleno domínio da escrita, para, mais adiante fazer umas ‘embaixadinhas’ com a cadência dos signos.

O poeta investe pela prosa, assim como quem goza da simpatia de seus leitores. Com Arte Desdenhosa, dá a Volta, onde parece contradizer o mestre da terra, sobre se perder na volta, como se antecipasse e dissesse que muitos se perdem com a ida. No entanto, fiquemos com o seu melhor jogo irônico. Uma Questão de Meio. Versátil, culto simples, nada esnobe, parece se exercitar numa oratória desprovida de arroubos, navegando entre dialética e prosa quase barroca, cheia de antinomia e cadência no verso, quando preciso.

Escreve como se servisse cerveja com colarinho, deixando o peso da loura aquiescer no fundo do copo para o melhor desfrute. Deixa-nos, para o fim,dois ensaios, um dos quais tive o privilégio de ler em laudas impressas, no café do Calçadão, o“Augusto dos Anjos, a Arte da Angústia e Busca da Beleza Imanente”. Se investe em área tão temerária, pois abundam os ensaístas sobre o poeta dos Anjos (sarcasmo, à parte), José Edmilson escolhe três poemas para buscar, lá, o recôndito do poeta do Tamarindo: “Monólogo de uma Sombra”, “Versos Íntimos” e “Martírio do Artista”. Para este ensaio, pede a bênção ao arauto-mor dos poetas modernos, Baudelaire, lemaudit. Em outro ensaio, “Fenomenologia do Silêncio”, protagoniza o poético e o reflexivo, revelando quase um poeta barroco, pela contradição de juízos e pela cadência: “O silêncio perturba, destrói, enlouquece, mas como acalma, refrigera e sara; é o silêncio do à toa e da moderação”.

Poético, ensaístico (e minimalista), fecha o mini ensaio Volta, com “Voltar é cometer as vontades da vida”. Em Farsantes Melindrosos, apresenta características humanas passadas a limpo, num diálogo simples de em tema corriqueiro. Dicotômico nos ensaios, usa isca para atrair o leitor ingênuo e sentimental: “A amizade é o sentimento de quem é amigo”, num aparente contrassenso, para apresentar a máxima do poeta romântico alemão Goethe: “A amizade é como os títulos honoríficos, quanto mais velha, mais preciosa”.

Reflete sobre a morte/vida, visitando o evangelho e Augusto dos Anjos, divagando nas mais diversas visões espiritualistas, mas amarrando seu raciocínio num dístico racional, a morte cerebral

Em seus textos curtos, à guisa de jornal, ele não consegue esconder seu passeio pela área do Direito; mestre em Literatura pela UEPB, filtra o aprendizado do universo de Kelsen e o transforma em texto lírico, propedêutico. Também passa do profanoao bíblico, em “Suspirar por… um dos Pecados Capitais”: Melhor é a vista dos olhos do que o vaguear da cobiça; também isso é vaidade, e desejo vão”

Podemos terminar, por ora e aqui, com o seu “Fenomenologia do Silêncio”, pois, como diz José Edmilson: “Antes do verbo, já havia o silêncio. O silêncio é metafísico e sopra como aprendizado com a eloquência de quem deseja saber mais”. Como e aqui, neste recinto, o poeta campinense perguntaria, como fecho para seu leitor e do seu livro: Silêncio, que silêncio!?

O poeta está a refletir! Sairá novo livro?

 

Por Josemir Camilo

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Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

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