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Josemir Camilo: O 105º aniversário do imortal Aluízio Campos

Josemir Camilo. Publicado em 7 de dezembro de 2019 às 7:40

A Academia de Letras de Campina Grande vê passar, com brilho, mais um aniversário do seu cofundador, junto com Amaury Vasconcelos. Quem faz a festa é a Furne (Fundação de Apoio ao Ensino, à Pesquisa e à Extensão, herdeira da antiga Fundação Universidade Regional do Nordeste). Primeiro, porque a Furne se tornou beneficiária de parte da herança de Aluísio Campos; segundo, que esta entidade hospeda em seu prédio, a sede da Academia, a qual se junta a estas comemorações.

Aluízio Afonso Campos nasceu em 08/12/1914, na fazenda Ligeiro, quando esta propriedade pertencia aos Montenegro; a mãe de Aluízio era Porfíria Montenegro, viúva que ficou do deputado Afonso Rodrigues de Souza Campos. Coincide, pois, sua comemoração com dia festivo para os católicos.

Em 1935, diplomou-se bacharel em Direito pela Faculdade de Direito do Recife, mas já aí apresentava (por sua família) certa precocidade, pois já estava eleito deputado, um ano antes, pela Paraíba, com apenas vinte anos. No entanto, com o golpe getulista de 1937, perdeu o mandato. Estabeleceu-se com banca de advogado, em Campina, de 1937 a 1950, mas com o fim da II Guerra Mundial e a queda de Getúlio Vargas, ingressou na política, mais uma vez, desta feita, em 1947, na União Democrática Nacional, tendo no mesmo ano se casado com a pernambucana, Inalda Lobo Campos, que havia estudado no Alfredo Dantas (e que viria a ser a tia do famoso compositor Edu Lobo). Também, neste mesmo ano, os ventos lhe sopram bonança, terminando por ser contratado como advogado do Banco do Brasil.

Como se tornara político, presenciou a campanha violenta de 1950, em Campina, quando houve o massacre da Praça da Bandeira, onde morreram quatro pessoas. Candidata-se, usando este fato político em seu favor e se elege deputado estadual pelo Partido Socialista Brasileiro, ironias à parte. No entanto, requisitado pelo Banco do Brasil para trabalhar no Distrito Federal da época, o Rio de Janeiro, deixa o mandato e passa a morar na cidade maravilhosa, até começo dos anos 1980. Durante o tempo do Rio, foi nomeado, por Getúlio Vargas, em 1950, membro da Comissão Nacional de Política Agrária, além de assessor jurídico da Comissão Mista Brasil-Estados Unidos; tendo viajado aos Estados Unidos. Com a ida de José Américo, para auxiliar o governo de Vargas (o mesmo que dera golpe em Zé Américo, pois este ia se candidatar a presidente em 1937), uma equipe de paraibanos se forma dentro do palácio do governo, no Catete. Lá, pelo menos quatro paraibanos vão se cruzar pelos salões e salas da administração pública: Celso Furtado, Aluízio Campos, José Américo e Cleantho de Paiva Leite, este como oficial de gabinete do presidente Vargas.

Aluízio Campos parecia o coringa para tanta serventia, pois fora nomeado, em 1952, chefe dos serviços jurídicos do BNDE(S) e um dos membros da Diretoria do Banco do Nordeste, cujos estatutos foram de sua redação, o que talvez lhe tenha dado força política, pois Campina foi a primeira cidade, sem ser capital, a receber uma agência do BNB. Participou da formação da ETENE (Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste) ligado ao BNB. Nunca deixou a política de sua terra e sua fazenda, como em 1956, em que Aluísio Campos acompanhou, em Campina Grande, a assinatura do contrato feito pelo Estado com a firma Saturnino de Brito para a ampliação do abastecimento de água da cidade, do açude de Boqueirão.

No governo de Juscelino, em 1957, participa da criação do GTDN (Grupo de Trabalho para Desenvolvimento do Nordeste), do qual é nomeado chefe. Mas, o clamor da grande seca de 1958, leva JK a nomear Celso Furtado, um economista internacional, para agilizar soluções contra a seca e implantar um programa de metas de industrialização do Nordeste. Celso lança Uma Política de Desenvolvimento Para o Nordeste. O governo JK tinha criado, em 1959, o Conselho de Desenvolvimento do Nordeste (CODENO), de onde, no final daquele ano, em 15/12 (portanto, a Sudene está comemorando 60 anos), JK criaria a Sudene. Aluízio como membro do corpo da Sudene foi afastado em 1964, junto com Celso Furtado, sendo este cassado, por 10 anos. Aqui, um tom de folclore político, pois Aluízio, buscando cacife teria perguntado ao General Sampaio, interventor da SUDENE, exigindo um atestado de ‘subversão’, o que espantou o general e lhe perguntou por que queria isto e AC respondeu que era presidente do PSB que era socialista mas “na Paraíba ninguém acredita que sou socialista” (Depoimento de Juarez Farias ao autor – JCM).

Mas, enquanto esteve na Sudene, AAC soube, também, ser empresário. Em 1963, vendeu parte da fazenda Ligeiro ao governo estadual para implantação do Distrito Industrial da cidade, além de investir em outras empresas, como acionista. As terras da fazenda Ligeiro vinham sendo adquiridas pelo governo, tanto federal, como estadual, desde 1948, quando parte da fazenda foi comprada para ser o aeroporto João Suassuna. Suas terras iam até onde, hoje, é o Amigão e o Parque de Exposição. Hoje, a grande fatia foi adquirida pela Prefeitura, em projeto do Ministério das Cidades e se tornou o bairro Aluízio Campos.

Portanto, Aluízio Afonso Campos foi advogado, administrador de empresas, fazendeiro pecuarista e dono de imobiliária, um dos homens mais rico de Campina e da Paraíba, causando com isto, sempre uma romaria, todo ano de eleição, tanto para disputar do seu pensamento de conciliação, mas e principalmente do seu dinheiro. A fazenda do Ligeiro recebeu José Maranhão, Pedro Gondim, Ulisses Guimarães, Ronaldo da Cunha Lima, Raymundo Asfora, deputado Antônio Gomes, líderes jovens, vereadores e muita gente popular em busca do que se entendia como ‘ajuda’.

No entanto, tais romarias políticas não significavam, para ele, vitória nas campanhas, pois, apesar de seus 60 anos de políticas, só conseguiu se eleger para as legislaturas de 1934/1937 e a de 1950, como deputado estadual, só voltando a ter chances, e como deputado federal, em 1983-1987 e 1987-1991, quando foi deputado constituinte. Nesta, teve brilhante contribuição na redação do preâmbulo da Constituição. Não se sabe se seu rodízio partidário foi o motivo de pouca eleição, ou se o primeiro abandono em 1950, ou foi o troca-troca de partidos. Suas filiações partidárias foram Partido Progressista, 1935-1937; UDN, 1945-1949; Partido Socialista Brasileiro, 1950-1965; ARENA, 1966-1979; e PMDB, 1980-1991.

Ao falecer, em sua fazenda Ligeiro, em 17/06/2002, deixou uma forte documentação política, ainda a ser catalogada pela Furne, bem como várias obras de cunho politico, como Aluízio Afonso Campos (depoimento; 1977-8). Rio de Janeiro: FGV/CPDOC, 1989 (dactil). Sua autobiografia (na verdade, escrita por seu amigo Juarez Farias, conforme me confidenciou Juarez) Relógio do Tempo (1999), o livro-seminário sobre seu pai: Affonso Campos, um contemporâneo do futuro (Brasília: Senado Federal, 1990) e uma série de discursos publicados. Hoje, sua casa na fazenda Ligeiro foi transformada pela Furne no Museu Casa de Aluízio Afonso Campos e sua fazenda, de acordo com o seu testamento, será um núcleo de educação e ciência, com aportes nas áreas ecológica e agropastoril.

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Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

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