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Josemir Camilo: Mulheres na Academia de Letras de Campina

Josemir Camilo. Publicado em 25 de outubro de 2019 às 10:48

Com a posse recente da acadêmica Valéria Vanda Xavier Nunes, na Academia de Letras de Campina Grande, direcionei meu discurso para apresentar um recorte social que essa Confraria das Letras representa.

Na noite de 24 de outubro, a Academia de Letras de Campina Grande (ALCG), Casa de Amaury Vasconcelos, deu prosseguimento às atividades de preenchimento de cadeiras vacantes. A posse se revestiu de maior admiração, pois simbolizava uma vitória na trilha da visibilidade do gênero feminino nesta Confraria. Nos últimos anos, esta casa teve o maior déficit de companhias de literato(a)s, sendo que o de acadêmicas foi, proporcionalmente, maior. Nossa Academia vinha reduzida a apenas três bravas companheiras, das nove a que já chegou a ter: Leônia Leão, Elizabeth Marinheiro e Mabel Amorim. Saudamos, ainda, as imortais Dea Cruz e Wanda Elizabeth. Em dois anos e meio desta nova diretoria, quatro brilhantes acadêmicas se imortalizaram: Molina Ribeiro, Josefa Dorziat, Rosália Ribeiro e Lourdes Ramalho. Portanto, é de plena reconciliação entre tristeza e memória, que renovamos nosso quadro feminino, na pessoa de nossa cronista e memorialista, Valéria Vanda Xavier Nunes, na cadeira fundada por Maria Molina Ribeiro, sob o patronato do seu tio Ascendino Moura.

Esta lacuna que sentimos na Casa de Amaury Vasconcelos é um reflexo social. Já abordei em artigo, aqui, neste espaço, questionamento de jornalista sobre a representatividade das mulheres na formação de Campina Grande. Onde minha memória é curta, pela limitação da vivência – sou apenas um campinense de 40 anos – tive que recorrer aos cronistas antigos da cidade e me deparei com uma grande lacuna: a ausência da mulheres como protagonistas. Volta-se a cair no conceito freyreano: o patriarcalismo. Hoje, tem outro nome: machismo.

O registro mais antigo que encontrei, em Epaminondas Câmara, foi o de uma grande professora, Auta Leite, final do século XIX. As mulheres campinenses (e brasileiras, em geral), começaram a se destacar no público por duas vertentes: parteira e professora. No começo do século XX, aparecem mais três ou quatro professoras. Por volta de 1940, aparece uma revolucionária na educação, Apolônia Amorim, mas outras permanecem, ainda, no anonimato.

Mulheres fortes havia, mas na vida privada, na família. Os Agra e os Campos elogiam a bravura da mãe do jurista Afonso Campos, Rosalina Agra de Souza Campos, que teria discutido, pessoalmente, com o cangaceiro Antônio Silvino, quando este queria se vingar do político. Neste sentido, há, também a esposa deste mesmo advogado e deputado, Afonso Campos, dona Porfiria Montenegro Campos, (Yayá Campos) que ficando viúva, sustentou a Fazenda Ligeiro e orientou o filho, Aluízio Campos a seguir a carreira do pai. Seu nome. Seu nome aparece numa lista do governo sobre fazendeiros produtivos, na década de 30.

No entanto, boa parte da memória literária preferiu o lado da degradação feminina e dos prazeres dos homens, mulheres loucas, prostitutas. Poucas mulheres chocavam a sociedade, como a atriz Nair Bello, numa terra e época, em que o único papel feminino devia ser a maternagem. 

Houve mulheres, no século XX, que desafiaram a sociedade, escrevendo poemas, alguns de teor erótico (esta, ainda hoje, vive em nossa sociedade). Poet(is)as, como Heloísa Bezerra e Selma Vilar, campinenses, e as leais forasteiras que conseguiram um espaço em Campina: Iracema Marinho, Maria do Carmo de Araújo Lima, Nair de Gusmão. Umas até se deslocaram para o eixo Recife-Rio. No entanto, nenhuma destas mulheres foi escolhida como patroness (Patrona?) da Academia de Letras, muito embora já pontificassem na Coletânea de Autores Campinenses, dirigida por Elpídio de Almeida. Considero a Coletânea como uma pré-virtual Academia de Letras. 

Com a escolaridade feminina, a partir da instalação do Colégio das Damas, em 1931, e da audaciosa proposta do Tenente Alfredo Dantas, de manter um colégio misto, as mulheres jovens começam a escrever. Com a redemocratização, é eleita a primeira vereadora, em Campina, Dona Dulce Barbosa. Com a criação de cursos superiores, agora não é mais a mulher, individualmente, falando que vai aparecer, mas a categoria, melhor dizendo: o gênero. Algumas lideranças mereceriam ser resgatadas, como a de Ofélia Amorim, Salete Van der Poel, Maura Ramos e tantas outras que, silenciosamente, foram se libertando do patriarcalismo, através da atividade profissional, da política, da cultura, e outras, até pelo divórcio, em busca da liberdade de trabalhar, pensar e agir. 

Salve a Memória de Lourdes Ramalho e a de Molina Ribeiro! Salve a posse de Valéria Vanda!

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Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

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