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Josemir Camilo: Fahrenheit 451, no Brasil?

Josemir Camilo. Publicado em 8 de fevereiro de 2020 às 10:19

Nesta semana, vi a segunda filmagem do clássico de Ray Bradbury, de 2018, para a tevê, dirigida pelo norte-americano de origem iraniana, Ramin Bahrani. Assisti, mas com a mente presa na primeira filmagem, a do francês Truffaut (1966). Estava longe de prever que, aqui, no Brasil, alguém teve a brilhante ideia de não queimar, mas de confiscar livros, como malditos. Agora, Fahrenheit 451, parece querer começar, como reality show. Temos um Capitão Beatty?

Lendo a coluna de Leonardo Sakamoto, no UOL (07/02/2020), vê-se que “O governo de Rondônia mandou censurar livros de Machado de Assis, Euclides da Cunha, Rubem Fonseca, Franz Kafka, Mário de Andrade, Ferreira Gullar, Nelson Rodrigues, (por conterem) “conteúdos inadequados”. Se se mandou retirar “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, na certa deve estar se constituindo um novo Alienista.

Será que vamos reviver o Index Librorum Prohibitorum criado pela Igreja Católica em 1559 (pergunta o colunista), e cita casos avulsos, que de tanto estarem aparecendo, parece quase uma onda, como a ação do governador de São Paulo, que segundo, ainda, o colunista, mandou recolher cartilhas do oitavo ano, por censura.

É bom lembrar que Bradbury (assim como George Orwel – 1984 e Revolução dos Bichos) estava lembrando dos estados totalitários, como na Alemanha, quando se queimaram livros de Einstein, Mann, Freud, entre outros. Se a Alemanha reeditou a Inquisição, ficou o alerta de Ray Radbury sob uma pretensa sociedade do futuro em que se queimariam todos os livros e, pasmemo-nos, leitores.

No livro/filme, cada leitor, que escapou de virar churrasco nazista, tornou-se um livro. Na refilmagem de Bahrani, quando o bombeiro-que-incinera livros, arrependido, tenta se juntar aos homens-livros, tem que obedecer a ordem de eliminar outro bombeiro, capturado.

Perto de cometer o crime, é barrado e ao suposto bombeiro, negro, lhe é tirada a carapuça e este, logo se apresenta: James Baldwin.

Homem-livro. Independente do fecho ‘cristianizado’, fica a mensagem: cada livro não é só um aglomerado de papel, tinta e palavras; cada livro é um ser humano libertado da ignorância.

Ainda há tempo para os capitães Beatty, belicosos e ateadores de fogo em bibliotecas: leiam um bom livro! Não confundir fogo com luz!

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Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

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