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Josemir Camilo: Canto e Conto – Prontuário

Josemir Camilo. Publicado em 16 de agosto de 2021 às 8:37

Da janela do DOPS, C ficava espiando para ver se vinha alguém conhecido o suficiente, para entender a razão porque estava ali, preso. Não podia ser, por exemplo, algum aluno ou aluna do Liceu, porque poderia interpretar mal, sua cara ali nas grades do primeiro andar da Secretaria de Segurança Pública. Seria um comunista? “Eita, meu professor é comuna!, Pela barba e pelo cabelo, vai ver é daqueles bichos grilos de Olinda-fumacê; vou dizer na escola, que o cabra é comuna e maconheiro!”

No entanto, como um azougue preso àqueles ferros da janela, por trás da janela de vidro, uma banda aberta deixava entrar um ar que abrandasse o calorão daquele fevereiro, C não conseguia se afastar. Também, não teria o que fazer. Puxar conversa com Beto Boiadeiro não via nem como começar, já que o bicho era um pistoleiro de aluguel. Olhar os livros presos em armários de madeiras, com portas de vidro, poderia ser denunciado pela curiosidade. Estavam presos Mao-Tse-Tung, Lênin, Paulo Cavalcanti, Miguel Arraes (‘ele’ mesmo, não; sobre ele!), Bakhunin, Caio Prado… e C ficava torcendo que, ali, nas estantes, não encontrasse Leo Huberman, porque senão iriam comparar logo as edições, títulos, autor com o que tiraram de sua 007 de professor e C estaria ferrado. Era comuna, sim! Olhaqui! Gritaria o escrivão-policial, mais dedo duro do que o delegado baixinho, de cabeleira dura e óculos pretos. Voltava à janela. Ouvia o pistoleiro cantar “Meu cavalo/morreu ontem/ a mulé no mesmo dia/ do cavalo tive pena/ da mulé muita alegria!”

Olhava para o fundo do corredor, esperando que a grade da cela dos amigos de Goiana estivesse aberta e eles, com direito a sair para o pequeno espaço, delimitado pelos homens, para esticar as pernas e, de lá, se comunicar com gestos e sinais, com C. Grade fechada.

Vê o quê na rua? Vê quem? Zé Tavares, do Grupão de Dom Helder, amigo de Alcino, o monge Alcuino, de brincadeira, e para esse, o Zé, daí, C faz tudo para não ser visto. Não, não! É melhor ser visto, sim, que ele vai contar logo para a liderança do Grupão, da UBES e da UNE, que viu um colega do Grupão preso no Dops. O problema era ele olhar para cima, para a janela. Cabra bom, viu? apaixonado por Geni, só pensa em fazer o bem, sem nem olhar a quem. Mas, olhe, seu infeliz, olhe aqui pra cima! Me veja e saia correndo para o Giriquiti, ou pros Maristas, da Conde da Boa Vista, e avise todo mundo, que eu tou lascado, tou incomunicável, vão me fu(posso?). Vão me mandar para Aeronáutica, o escrivão, filho da puta de Olinda, disse que já tinha me visto no Umuarama e que era perigoso e dissimulado. Olha praqui, fíi da mãe do Zeca!

Olha praí! Agora deu pra empurrar aquele carro enguiçado, aí, na rua. Ele, sozinho! Ajuda, mas olha! Olha, nada! Esse fíi da mãe! e o carro pegou!

O sujeito bota o braço esquerdo pra fora, levanta a mão com o polegar levantado, legal! e Zeca, besta, ao atravessar exatamente para o lado do motorista, também levanta o polegar. O motorista bota a cabeça pra fora, dando um sorriso de agradecimento e eu me arreto mais ainda: era o safado do escrivão. Fo(posso, de novo?-se…

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Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

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