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Josemir Camilo: Ave, Cícero! Os que vão morrer te saúdam!

Josemir Camilo. Publicado em 29 de julho de 2020 às 9:20

Que César, que nada! Ave Cícero Agostinho Vieira! Três latinistas em um só! Grande cearense Cícero! Camarada, vamos caminhar esta subida até a capela de Ipuarana. Prometo ir lá, assim que sairmos da quarentena. Se não for em outras paragens!

Não foste, em fevereiro de 20, para o teu querido Ipuarana, quando todos os camaradas que fizeste desde os anos 1940 iriam se encontrar, como o fazem há mais de 80 anos. Até me convidaste! Eu que estou mais para ateu do que Mateus! Iria, mas me sentiria um pouco peixe fora. Se eras o mais antigo, como dizias em nossas jocosas apresentações aos amigos, eu era o último. Teríamos sido, tu meu mestre em latim, eu, discípulo disléxico (nesta língua morta, nesta língua torta – soltou-me o verso!), em 1965, primeira vez que subi a serra, meu primeiro contato campinense.

Camarada, me perguntas sobre o romance-memória que estou a finalizar! E eu agradeço tua leitura, Cícero (que muitas vezes teria gostado de anarquizar com você, trocando por Kíkero, suposto grego. E já troquei as pessoas do pronome – desculpa meu grande e eterno revisor – o maior de Campina e da Paraíba!). Pois bem, te falei pelo cel que se encontra parado o livro – certeza de que sairá póstumo, tantas páginas entijolei umas sobre as outras que a 400 chegaram. Eu sei que você ria corrigindo meu português (corrigindo, não camarada – e que camarada aqui não tem nada de comuna e sim de camaradagem, como a gente se dizia em nossos seminários e épocas diferentes – você nos franciscanos, eu, nos carmelitas; você, nos 40 e 50; eu, nos 60). Corrigindo, nada! Revisão! Se diz revisão!

Saudade, Cícero, de sentar à mesa de sua modesta residência e ouvir toda tua explicação, professor apurado, mestre-escola, errinho por errinho; não é ‘este’, camarada; é ‘esse’, porque está longe. Mas você, meu querido amigo, se embeiçou pelo meu romance e, em vez de corrigir (opa! Revisar!), você navegou para trás, pegou o bote da saudade e entrou em águas da sua infância cearense. E estávamos nós, no papel, vendo que o Nordeste fala a mesma língua. E eu te enganei, Cícero! Ou ao menos pensava te enganar, mas você me deu foi uma rasteira, mostrando que leria (se não leu, mesmo) o argentino-parisiense Cortázar, porque logo sacou o meu jogo no romance. Como o jogo da amarelinha (respeite, home! No Nordeste não é amarelinha, é academia! Brincar de academia, jogar academia!). Ou seja, a gente vai para onde a pedra da vez mandar.

E a tua dissertação, hein Cícero, que tanto te incentivei a publicar. Estavas ajeitando, não era? Interessantíssimo teu estudo sobre a FURNE/URN, como passo pedagógico no ensino superior no interior do Nordeste! Campina Grande ensinava a região e o Brasil a ler Paulo Freire, teu eterno guru! Cadê esses (ou estes? Hein, Cícero?) originais? Vamos publicar, sim! Se já tiveste publicado, estarias na Academia de Letras de Campina Grande, e já estavas! Quem dos acadêmicos não submeteu seu texto ao grande latinista?

E para finalizar, querido e íntegro amigo, franciscano legítimo, o romance será teu, como já estava, com o teu ditado ‘‘mane mecum’. Sei que descobriste as passagens tuas: “Pedrão inventa o ‘mane mecum’. Ave Cícero! (Não era César?!). Cícero não, era Frei Olegário, o baixinho, latinista de primeira!”. E, aqui, tu viravas, temporariamente, carmelita. Tu viste e sorriste! Outra tirada, no romance, que tu viste: “Romão era o mais católico, por imitação do seu onomástico? (Grande Cícero, os que vão morrer te saúdam, no Juazeiro!)”. E voltas (e já estou vendo o teu sorriso de menino levado, antes da Prainha – o teu seminário menor), na viagem daquele autor, quando se fala na passagem do grande cantor tenor Frei Mojica: “No entanto, sua passagem por Campina Grande foi registrada pelo aluno franciscano, Cícero Agostinho Vieira – que se julgava ter três grandes oradores como proteção, e que me contou que Mojica não era leigo, pois celebrara missa no convento de Lagoa Seca (Ipuarana, rapaz!).

Vai, Cícero, cumpriste tua boa missão, combateste o bom combate, camarada! Só saudades! “Mane mecum!”

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Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

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