Josemir Camilo: A Independência do Brasil começou em Portugal?

Josemir Camilo. Publicado em 31 de agosto de 2020 às 7:57

Com as comemorações dos 150 anos do primeiro Instituto Histórico municipal do Brasil, o de Goiana (hoje: Instituto Histórico, Arqueológico e Geográfico de Goiana – IHAGGO), constituído em 8 de setembro de 1870, somos obrigados a uma reflexão, quase que umbilical, com aquela comemoração em Goiana. É que aquele imperial instituto tomou como data magna da cidade, não o dia da fundação do Instituto ou da cidade (que não tem), mas elegeu a data de 29 de agosto (de 1821) como o ponto alto da historiografia local e pernambucana; para alguns, esta data tornou-se precursora da Independência do Brasil.

Em 24 de agosto de 1820, a sociedade portuguesa que vivia, politicamente, sob um protetorado britânico, resolveu tomar as rédeas do seu destino, fazendo irromper, na cidade do Porto, um movimento revolucionário ao qual Lisboa aderiu. Convocaram-se as Cortes, com representação do povo, clero e nobreza, para escrever uma Constituição liberal, na esteira do que haviam feito a França e a Espanha, acabando com o absolutismo e fazendo a família real voltar para Portugal.

Como municipalistas que somos (os brasileiros, em tradição; deixo de fora os historiadores modernos e pós-modernos), que sempre tentamos fazer a história do mundo a partir de nossa cidade, faço o inverso, para evitar um ufanismo fechado, e pregar um solidarismo intermunicipal ou regional e, indo mais longe, internacional, o quanto nos permitirem a língua e a cultura, o engenho e a arte. Daí o título provocante.

Pois bem, voltando à data magna de minha cidade (embora nascido no Recife, vivi infância e juventude em Goiana, a formação de minha memória), o 29 de agosto de 1821, a comemorar bicentenário, ano que vem, faço questão de mostrar o encadeamento do que chamamos História, esta narrativa materialista moderna. Fechar os olhos para o link Revolta liberal de Goiana e Revolta do Porto, achar que tudo já estava no peito e na mente, ou na identidade, do pernambucano, não condiz tanto com a dialética dos acontecimentos. História, a confecção da narrativa, não deve ser monolítica (o único monólito que fez história (?) é o do filme 2001, Uma Odisseia no Espaço). A ver assim, o tecido histórico se torna de uma dureza obcecante.

Voltemos ao discurso historiográfico. Como as bases daquela Constituição exigiam eleições para as juntas provinciais, os ex-presos políticos, republicanos de 1817, diante da resistência do governador general Luiz do Rego em convocar tais eleições, resolveram se reunir em Goiana, um ano depois da Revolta do Porto e, em 29 de agosto de 1821, elegeram um Junta Governativa Constitucional provisória, com o fim de derrubar o general. Este movimento liberal, que ficou conhecido na Memória Justificativa de Luiz do Rego (editada em 1822), como “o Governo de Goiana”, que o derrubou em 5 de outubro, num congresso democrático, na povoação de Beberibe, a tão chamada Convenção de Beberibe, o obrigou a se demitir do cargo e partir, às pressas, para Lisboa.

Não foi o ‘terramoto’ (como dizem os ’patrícios’, lá, na terra-mãe) de Lisboa, de 1755, mas o abalo da Revolta do Porto quebrou os alicerces do colonialismo. Salve a Revolta bicentenária do Porto! Salve o 29 de agosto de 1821!

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Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

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