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A independência antes da Independência – Goiana, 1821

Josemir Camilo. Publicado em 29 de agosto de 2021 às 8:21

No dia 29 de agosto, a cidade histórica de Goiana (PE), com 451 anos de início de seu povoamento, chega à sua data magna: o tempo de formação de sua identidade histórica e municipal. O marco disto é o ano de 1821.

Na madrugada de 28 de agosto, várias tropas de milícias em diversos engenhos da Mata Norte pernambucana, incluindo, aí, Nazaré da Mata, Tracunhaém, a povoação de Mocós (Timbaúba, hoje), Paudalho e Limoeiro, se juntaram às lideranças liberais goianenses, para na vila de Goiana, para eleger uma Junta Governativa, como prescreviam as bases da Constituição portuguesa, que, ainda estava sendo escrita. Depois aderiram Igaraçu, Cabo, Sirinhaém, Jaboatão e Santo Antão (Vitória de). Esta aliança de vilas, freguesias, engenhos, tinha a missão de colocar em prática as ideias da revolução do Porto, de 24 de agosto de 1820, para instaurar, na egrégia vila de Goiana, o constitucionalismo em nossa terra. Toda a tropa arregimentada chegava apenas a 600 homens, inclusive uma liderança revolucionária nata paraibana, o pilarense Manoel Clemente Cavalcanti de Albuquerque e seu pai, João Baptista do Rego Cavalcanti, capitão-mor da freguesia de Itabaiana.

Esta data, o 29 de agosto, poderia ter passado esquecida se não fosse o brilhante trabalho intelectual de um grupo de goianenses e, entre eles, o luso-brasileiro, Francisco Raposo d´Almeida, residente em Goiana; juntos fundaram, em 8 de setembro de 1870, o Instituto Histórico de Goiana, o primeiro Instituto imperial, o segundo de Pernambuco e o quarto do Brasil. Pois bem! Numa de suas primeiras sessões, colocou-se em votação a criação de sua data magna. Entre o 7 de setembro, a data da elevação à Vila, a da elevação à cidade, e a da 1ª Junta Constitucional do Brasil, venceu esta última. Ou seja, a memória goianense vinha à tona, no cinquentenário daquela revolução liberal.

O que veio a ser esta Junta Governativa de Goiana? A depender da documentação oficial, menos da metade se saberia de como ocorreu esta revolução que resultou num governo liberal e constitucional, contra o prepotente general governador, o português, Luiz do Rego Barreto. Mas foi exatamente, através de duas memórias escritas que a versão desta história foi tecida e, em breve, sairá em forma de livro, de nossa autoria: “1821 – A revolução liberal em Goiana e a queda do General Luiz do Rego”.

Um dos líderes daquele movimento foi o português radicado no Brasil, Felippe Menna Callado da Fonseca, que antes havia sido preso, em 1817, por republicano. Pois bem, este senhor, em idade avançada, escreveu tudo que ocorreu (por parte de sua observação) naquela revolução, em que ele se coloca como líder. Seu texto, sob o título de “Recordações”, trazia no subtítulo: “O Movimento Revolucionário de Goiana, em 1821”. Como historiador cético, li, anotei, mas fiquei com um pé atrás: ele escrevia também sobre si mesmo. O outro documento básico foi “Memória Justificativa” de Luiz do Rego, o aparente adversário direto do secretário da Junta de Goiana, o Felippe Menna. Pude, assim, imprimir um diálogo surdo entre os dois memorialistas, dois espadachins da retórica do século XIX na política: liberal, um, absolutista, outro.

Vivia-se sob o regime da monarquia absolutista e nós sofríamos debaixo do jugo colonialista, totalmente sem liberdade. Em 1817, houve a gloriosa e trágica revolução republicana. De Goiana, foram presos vários líderes. Soltos, quatro anos depois, em 1821, estes ex-presos políticos, começaram a articular a derrubada daquele general, evitando fazer movimentos na capital de então, Olinda, na vila do Recife e na vila de Goiana. Daí a escolha de engenhos como lugar de conjuração, de articulação.

Formada a tropa, chegada à vila de Goiana, na madrugada de 29 de agosto, começou a discussão política, na Câmara, que durou quase um dia todo, devido à resistência de autoridades e comandantes portugueses. Por fim, venceu a campanha liberal e se elegeu um governo sob o nome de Junta Governativa Constitucional de Goiana, cujo presidente foi o advogado e vereador goianense (que fora preso político em 1817) Francisco de Paula Gomes dos Santos. A adesão de vários senhores de engenho que comandavam tropas de milícia fez com que este exército de milicianos, homens do exército português e cidadãos (como prescrevia a Assembleia constituinte portuguesa) passasse a contar com cerca de sete mil homens. Cercaram a capital e o Recife e através de um Tratado de paz, na Convenção de Beberibe, obrigaram o general a renunciar e partir com seu exército.

O então chamado Governo de Goiana existiu por 58 dias, quando em 26 de outubro se elegeu a Junta Provisória de Pernambuco, cujo presidente foi o comerciante Gervásio Pires Ferreira, ex-preso político de 1817. Naquele dia, em vez de passar o poder, o general partiu, irado, para Lisboa. Acabava, em Pernambuco, o domínio português. Isto a um ano, um mês de 19 dias antes de qualquer Ipiranga de Independência vassala (recordemos 1817). Salve, 29 de agosto de 1821! Salve Goiana!

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Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

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