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Josemir Camilo: A enciclopédia e o cordel

Josemir Camilo. Publicado em 14 de outubro de 2019 às 13:07

Sábado, 12 de outubro, decido mais uma vez entrar na Bienal Internacional do Livro, no Recife. Tomo um susto, em decorrência da grande fila que se formava, dobrando na esquina do Centro de Convenções; tudo, porque, agora, a Bienal estava reduzida a um só portão de entrada e improvisaram o de saída, que era também o de entrada de material. Não entendo como encolheu, de três portões/pavilhões para um.

Engrosso uma fila de meia entrada (sim, era pago!), cheio já de orgulho, porque no dia anterior, quando fui comprar a ‘meia’, o rapaz me perguntou: o senhor tem mais de 60? Quando estou na fila, no sábado, então, vejo que um dos seguranças, elegantemente, vestido de terno, implica com um preto velho que insistia em abrir seu plástico grosso e transparente para botar, na calçada, seus livros, senão usados, mas de estoques antigos. Parecia a briga de Davi e Golias, no aspecto físico mesmo. O segurança sempre mandando que ele fosse pra longe, que, ali, não era lugar de vender livros, ainda mais usados, dizia, ou algo parecido, com certo desprezo. Entrei nos corredores das livrarias e editoras (que só vendiam, sem ter ofertas, aparentemente, de editar seu livro), mas o ambiente estava apinhado de gente. Calculei que mais da metade era de professores e alunos da rede estadual e municipal. Como não encontrei amigos, nem o editor que buscava e decepcionado porque meu livro A Primeira Ferrovia Inglesa não estava exposto no stand da Companhia Editora de Pernambuco (CEPE), resolvi sair daquele ‘acocho’, mas não sem antes perguntar a funcionária da CEPE, sobre meu livro. Ela disse que não estava exposto… (uma resposta ruim que achei boa): esgotado!

Não passei nem meia hora, zarpei logo. Na saída, passei pelo senhor aposentado (deduzi pela idade) que vendia os ditos livros ‘usados’. Eu não comprei livro algum na Bienal, mas dei de cara, no chão, com um livro sobre História e Literatura. Quando pergunto o preço; a maior alegria: era um amigo, com quem trabalhei uns meses, na Livro 7, do Recife. Alegria e pena em ver o companheiro vendendo livros, ali, junto com cordel e cd de poesias da Geração 65 e ele foi logo dizendo: é pra completar a aposentadoria. Trabalhou a vida inteira e contribuiu por 28 anos. Quando a Livro 7 fechou, desempregado começou a vender livros, porque não sabia fazer outra coisa de que gostasse tanto. Tentando representar algum livreiro pequeno, sempre se locomovia para as atividades da universidade federal, até que herdou um box e lá se instalou. Mas, mesmo assim, o que ganhava não dava para pagar o INSS, daí, que ficara contente quando a autarquia lhe deu apenas um salário mínimo de aposentadora; pelo menos isso, completou.

O que vi, no começo, não era uma briga de David e Golias, era da enciclopédia e o cordel. Minha tarde não estava perdida, encontrei um bravo amante dos livros, meu amigo livreiro Walfrido. Longa vida, companheiro!

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Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

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